ANIMAIS SELVAGENS, NO CAMINHO DAS CRIANÇAS ATÉ O JARDIM DA INFÂNCIA

Texto – Diana Meseșan
Fotos e vídeos – Andrei Becheru

Publicado na Decât o Revistă

Você deixaria seu filho ir ao jardim da infância se tivesse que andar a pé uma hora e meia até chegar lá e ainda podendo topar com javalis no meio do caminho?

Pela trilha estreita de dois palmos, que sobe paralela ao rio, uma salamandra negra com manchas brancas surge na frente de Florin Csorei. O menino de seis anos e 1,14m de altura se sobressalta e dá passagem ao animal. Usa botas de borracha e tem uma mochila pequena modelo camuflagem nas costas. Florin é corajoso por natureza. Não tem medo de javalis, nem de de lobos, apesar de um lobo numa noite de inverno ter dado um bote em Bobi, seu cachorro, mas essa salamandra pegou-o de surpresa. Ion, seu irmão mais velho, de 13 anos e 1,60m, sorri e segue adiante. Teve de fazer esse percurso sozinho centenas de vezes para ir à escola. Uma hora para a descida, uma hora na volta, uma moleza quando é verão, um pouco mais difícil no inverno e na chuva. No começo assobiava, para espantar o medo ao cruzar a floresta, mas agora não tem o que temer. Ainda mais depois do que aconteceu há um ano, quando caiu de uma aveleira e rompeu o baço. Ion desceu ao vilarejo com as próprias pernas, cheio de sangue, acompanhado por Ana, sua mãe. A ambulância não tinha como chegar, porque até Cornățea, onde os meninos moram, não há via de acesso para veículos.

Agora, os dois irmãos voltam da escola e jardim de infância para casa, e sobem calados, um atrás do outro. As botas de borracha afundam na lama de 20 centímetros em alguns trechos, porque choveu algumas horas. Estamos no meio de maio, e os vales estão repletos de macieiras e cerejeiras em flor, de corças escondidas e javalis que destroem a plantação de batatas de madrugada. Para Florin, o caminho até o jardim da infância é como ir à igreja. Uma vez por semana, sua mãe, Ana, veste o filho com a melhor roupa que tem, e Florin desce para cumprir sua missão. Gosta do jardim da infância, mas o percurso é longo.

Cornățea é um povoado perdido em Maramureș situado a 1345 metros de altitude, onde vivem mais de 50 famílias de hutsuli, de etnia ucraniana. No vilarejo não há energia elétrica e nem via de acesso para veículos. Com exceção de alguns rádios de pilha e de algumas casas com painéis solares, tudo é como há séculos. Até alguns anos atrás, para descer até o asfalto, até Poenile de sub Munte – comuna da qual o povoado faz parte – só mesmo a pé ou com trenós puxados por cavalos. Faz dois anos, desde o quando os buldôzeres revolveram a terra – embora o prefeito diga que reparou a estrada já há dez anos – que se pode circular também com tratores e com automóveis de tração nas quatro rodas. As crianças da alfabetização e as do primeiro ao quarto ano estudam numa casinha alugada em Cornățea. As do jardim da infância e as que estão entre o quinto e oitavo precisam descer até a escola de Cvasnița, tendo que andar mais de uma hora a pé.

Seguimos os dois irmãos na subida. Viemos documentar como os pré-escolares chegam ao jardim de infância de Cornățea. Já faz alguns meses que o programa “Toda Criança no Jardim da Infância”, iniciado pela associação Ovidiu Ro e estendido para todo o país em fevereiro de 2016, chegou também em Cornățea. Crianças de famílias pobres podem receber vales mensais no valor de 50 lei por frequentar o jardim da infância diariamente. Em Cornățea, 50 lei significa pão para o mês inteiro, diz Ioan Corjoc, secretário do Liceu Tecnológico de Poienile de Sub Munte. As famílias não têm fonte de renda estável. Os homens trabalham na exploração florestal em alguns períodos do ano ou vão trabalhar no exterior. O problema, todavia, é a ida diária ao jardim da infância. Os pais preferem manter as crianças em casa, até que cresçam mais. Têm medo de deixá-los andar por caminhos assim tão longos todos os dias.

Nastunia Miculaiciuc é a primeira a chegar na escola de Cvasnița e acende a lareira de terracota com motivos florais. A mulher de 61 nos trabalha aqui desde 1982, é a mais velha da escola. No inverno ela chega às 4 da manhã, pois tem que acender oito lareiras. E após terminar com a oitava lareira tem que recomeçar o processo, porque o fogo já se extinguiu na primeira. Alta, como a maioria das mulheres dessa zona, usa um lenço na cabeça com florzinhas coloridas e uma saia até os joelhos. Nunca sai pelo vilarejo com a cabeça descoberta.

Quando mais jovem, corria de casa até a escola. Vinha com um lampião, porque não havia eletricidade nem na escola nem na rua. A escola de Cvasnița só foi ter energia elétrica em 2002, quando o prédio foi reconstruído. Também nessa época o jardim de infância foi alocado numa das salas da escola. Até 2002, não havia lugar para os pré-escolares, alugava-se um cômodo na casa de algumas pessoas.

“Dobre rano!”, saúda as crianças que param para comprar croissants com chocolate ou sorvete da venda ao lado da escola, antes do início das aulas. Na sala mal iluminada, com pacotes de biscoito, eugênias [Eugenia é uma marca de biscoito com receio de creme de cacau, muito popular no período comunista e ainda hoje comercializada] e conservas, um velho toca uma flauta cor de rosa todos os dias. Serve as crianças, dá uma saída para ver quem mais aparece, toca flauta e o dia passa devagar.

Às oito da manhã começam as aulas dos alunos do quarto ao oitavo ano, ao passo que os meninos da pré-escola aparecem depois das nove. Cvasnița é um povoado situado às margens da comuna Poienile de Sub Munte, a meio caminho entre Cornățea e o centro da comuna. Na escola de lá descem crianças como Florin e Ion, de Cornățea, e também vêm os de Cvasnita, “da base”. A língua de ensino é o romeno, mas as crianças e os professores falam ucraniano fora da sala de aula. Na escola não existe sinal telefônico, nem mesmo para telefonia fixa.

Mica e Ivancic quase sempre são os primeiros a chegar no jardim da infância, porque moram perto. Com os olhos cheios de sono, avançam nos brinquedos sem demora. Depois aparecem outras crianças da base, cada qual trazendo a mochila às costas com um pacote de comida e uma garrafa de suco dentro. Através da cortina branca, semitransparente, vê-se as colinas e as pessoas que passam de vez em quando pela estrada. Os pré-escolares de Cornățea não vieram ao jardim da infância no nosso primeiro dia por lá. São nove crianças do povoado das montanhas inscritas no jardim da infância, de um total de 21. A educadora nos diz que os de Cornățea fazem rodízio, e mesmo assim só com o tempo bom. Os pais tem dó de enviar suas crianças de 4-5 anos ao jardim da infância, ainda mais quando há muita lama ou neve. Outros não tem quem lhes ajude para levar as crianças. Como o jardim da infância não é obrigatório na Romênia, muitas crianças já entram direto na alfabetização.

Embora pareça apenas uma questão de lápis coloridos e brinquedos, a educação pré-escolar pode influenciar o rumo que alguém pode tomar na vida, a inserção no mundo do trabalho, o nível de educação e a integração social, especialmente para crianças de meios desfavorecidos, é o que mostra o plano estratégico da União Europeia para 2020. Na Romênia, 85,5% de um total de crianças com idades entre 4 e 5 anos frequentavam o jardim da infância em 2012. O objetivo da União Europeia é para que, até 2020, pelo menos 95% das crianças dos países membros façam a educação pré-escolar.

Monica Beucă, 46 anos, já está de pé desde às 6 e 15 todo santo dia. Primeiro cuida dos afazeres domésticos, das flores, dos três cachorros, da família. Depois do que, coloca um cachecol para se proteger do vento, ou um gorro quando chove, monta em sua bicicleta com assento de pele de astracã e saí pedalando em direção ao primeiro destino do dia.

Monica era ainda professora substituta de romeno e não completara 30 anos quando visitou a escola de Cvasnița pela primeira vez. Tinha vindo para uma aula livre em 1995. Um colega disse-lhe, em tom de brincadeira, para acender a luz, e Monica foi até o interruptor, pois não sabia que a escola não tinha eletricidade. Em 2000, fez a prova do magistério e pode escolher entre um posto no jardim da infância de Cvasnița e um no povoado Luhei, também na comuna Poenile de Sub Munte. Escolheu o de Cvasnița, pois tinha receio de o posto de Luhei ser desativado, porque eram poucas as crianças pré-escolares.

Às 8 da manhã chega no bar do centro “La Ionela”, onde bebe diariamente café com Ancuța, sua melhor amiga. Depois da dose matinal de energia, pedalam por um tempo juntas até Ancuța seguir em direção a Luhei, onde trabalha como educadora, enquanto Monica ruma para Cvasnița. Em média, Monica percorre os seis quilômetros até o jardim de infância em 15 minutos. No inverno, vem de carro com outros colegas. Trazem com eles machado, motosserra, pás e areia, na eventualidade de terem de cortar galhos ou para o caso de o carro ficar bloqueado em algum lugar. Nos anos anteriores, quando o caminho era pior, Monica vinha a pé, ou nos trenós puxados por cavalos dos aldeões de Cornățea, que retornavam da comuna com provisões.

No segundo dia no jardim da infância de Cvașnița, sentados em cadeiras pequenas esperamos os pré-escolares de Cornățea. Talvez venham hoje, pensamos. As crianças pintam com lápis de cor e de vez em quando perguntam a senhora educadora se está bonito. “A escola nos ofereceu só as quatro paredes”, nos conta Monica. Os móveis e os brinquedos foram doados pela fundação austríaca Waldburg.

Monica é a primeira a avistar Florin, que vem de mãos dadas com sua mãe, Ana Csorei. Fizeram uma hora da casa deles em Cornățea. O menino entra de cara fechada, senta numa cadeirinha e começa a brincar com um caminhãozinho. A mãe fica no pátio da escola, sentada nos tocos de madeira, até o fim do horário do jardim da infância às 12 horas. Na hora do intervalo, fica rodeada de meninas do sétimo e do oitavo ano. Parece um delas, embora já tenha 41 anos, quatro filhos e um roçado grande. Ela também estudou aqui.

Florin vem ao jardim de infância uma vez por semana, às vezes uma vez a cada duas semanas. No inverno, falta por várias semanas. Os outros meninos de Ana nunca foram ao jardim da infância. A mulher diz que, mesmo não tendo frequentado o jardim da infância, Ion não ficou atrás dos seus colegas. “Escrevia com uma letra tão bonita, mais bonita que a da professora”. Quando a mãe fala sobre ele, Ioan olha para outro lado. Fica encabulado quando olham para ele. “É difícil para as crianças andarem uma distância assim tão grande”, diz Ana. “E no caminho tem animais selvagens”.

Florin nasceu no hospital de Vișeu de Sus justo antes do domingo de Ramos em 2010. Ana desceu a pé pela floresta já verde, até o asfalto, e de lá uma ambulância a levou até a maternidade de Vișeu.

Enquanto nos contava isso, Ana faz café na máquina. Na cozinha deles dá para se ouvir um relógio de parede e o televisor do quarto ao lado, e, às vezes, o gorjear dos pássaros fora. Faz dois anos que têm energia elétrica, pegaram da casa de um vizinho, por meio de um cabo de 700 metros. Venderam um bezerrinho para pagar a eletricidade. As 58 famílias de Cornățea estão espalhadas por vários vales, e a casa de madeira de Ana e Andrei, seu esposo, está situada num vale mais próximo de Poieni. Oficialmente, a eletricidade também não chegou por lá, entretanto, um vizinho que reside perto da rede elétrica colocou luz em sua casa e pode então fornecer energia para outras duas famílias. Até construírem a casa, há quatro anos, a família Csorei morou na casa da família do marido, que fica a 200 metros mais em cima, em direção à floresta. Lá estão sepultados os pais de Andrei e também por lá fica a cadela que protege a plantação de batatas dos javalis. Nos vilarejos isolados dos montes, onde o acesso a um cemitério é bem difícil, as pessoas muitas vezes enterram seus mortos perto de casa.

Os javalis aparecem à noite, em bandos grandes, reviram a terra destruindo tudo. Uns atiçam os cães para cima deles, outros queimam serragem todas as noites para afastá-los com fumaça, outros gritam para afugentá-los. “Mas os javalis se acostumam com tudo”, diz Ana, rindo.

A porta se abre, e o cheiro de chuva penetra no cômodo. Uma vizinha, Ana, veio ver quem são esses que estão visitando Ana e Andrei. Tem 51 anos, um corpo maciço e uma voz ainda mais vigorosa. “Nós vivemos aqui nas colinas como animais selvagens. E no domingo temos que sair de manhã cedo, para a missa. Fazemos duas horas até a igreja”. Foi três vezes falar com o prefeito, perguntar porque não traz energia elétrica para o vale deles também. O prefeito disse que o projeto está feito, mas ainda não foi aprovado. “Estamos sozinhos no mundo. Criei seis crianças sem luz. Faziam as tarefas de casa à luz de lamparina”, continua a vizinha. Também ela conseguiu energia puxando de um vizinho há dois anos, por um cabo de 800 metros. Seus filhos trabalham na Inglaterra e enviam-lhe dinheiro. “Em vez de ajeitar meus dentes, coloquei eletricidade”.

Ștefan Oncea está no terceiro mandato como prefeito da comuna Poienile de sub Munte, a maior do distrito de Maramureș. Agora prepara-se para as eleições de 5 de junho, que podem catapultá-lo ao quarto mandato. Veio até a prefeitura domingo, porque “tem muito que fazer”. No corredor frio da prefeitura esperamos a hora da audiência. Listas eleitorais foram coladas na paredes.

O prefeito é um bom orador, foi o que nos disse a maioria dos aldeões antes de o conhecermos. “Pode falar sobre tudo e não dizer grande coisa”. Muitos habitantes de Cornățea se queixam de ele nada ter feito pelo povoado nos seus três mandatos, de modo que perguntamos-lhe se a situação é essa de fato.

“Ajudei-os com tubos de polietileno para colocar água no quintal, fiz um projeto de eletrificação e discuti com os aldeões sobre as estradas”, diz Oncea a respeito de sua atividade como prefeito nesses nove anos.

Olha pela janela meditativo quando fala sobre as autoridades de Bucareste, que não fizeram nada pelo vilarejo. “Talvez porque somos de etnia ucraniana”, diz e olha para o chão.

Em 2012, entregou um projeto de eletrificação da zona Cornățea ao ministério da Economia. O projeto foi feito por uma firma de Baia Mare e preconizava que o custo para a eletrificação da zona é de um milhão de euros. Para fazer esse projeto que “jaz no ministério em Bucareste”, a prefeitura pagou 42.000 lei, “uma soma pequena”. Uma família de Cornățea nos contou que pagou 2.300 lei por um painel solar, com a instalação incluída. Por esse preço, 42.000 lei seria o suficiente para colocar painéis solares em metades dos lares de Cornățea. Oncea nos contou que não considerou a alternativa dos painéis solares, porque ouviu dizer que nesse ano verbas da União Europeia seriam liberadas para a eletrificação do povoado.

Perguntamos também sobre a estrada, quanto custaria a pavimentação dela, de modo a oferecer acesso a veículos leve e ônibus escolares. Contamos que a maioria das crianças de Cornățea não descem ao jardim da infância porque não existe estrada e é preciso andar uma hora a pé. O prefeito responde que é impossível fazer algo assim, porque o caminho até Cornățea é propriedade privada e as pessoas não querem transferi-la ao poder público, de modo a fazer com a que prefeitura possa receber verbas da União Europeia.

“As pessoas se viram sozinhas”, acrescenta o prefeito.

Depois que deixamos a prefeitura, cruzamos no caminho com um microônibus no qual alguns homens colocam bagagens. Ao lado dele, uma mulher abraça uma menina de 10-12 anos, ambas chorando. “É um microônibus da Alemanha. Vão para a colheita de morango”, um homem nos explica.

As pessoas se viram sozinhas.

A dez minutos da escola, a turma de alunos de Cornățea entra num pátio, tiram os tênis e calçam botas de borracha. É o ritual diário, a caminho da escola, e depois na volta. Vales e lamaçais os aguardam, e para encará-los é preciso calçados resistentes. As meninas são mais recatadas, ficam na retaguarda e falam baixinho entre elas, ainda mais pela nossa presença por lá. Ainda que não entendamos ucraniano, as crianças nos evitam e falam muito ao pé do ouvido. Quando as meninas ficam muito para trás, os meninos começam a assobiar. Por meio de assobios também se comunicam de manhã, quando todos se reúnem para ir à escola juntos.

– As crianças do jardim da infância não vêm com vocês?

– Como assim? São muito pequenas, os pais não deixam.

Naqueles três dias que passamos no jardim da infância de Cvașnița, apenas duas crianças de Cornățea, das nove inscritas, desceram até o jardim da infância. Florin veio em duas ocasiões, e uma menina de Cornățea, Bianca, uma vez. Os moradores do povoado dizem que ouviram falar sobre os vales sociais, mas ninguém não recebeu nada até meados de maio.

Na lista das crianças elegíveis para receber os vales sociais pelos meses de março e abril, Monica Beucă só encontrou na lista o nome de oito crianças: um para março e sete para abril. As crianças ficam elegíveis para receber vales sociais se a renda mensal de cada membro da família não ultrapassar 284 lei e se um dos pais entregou na prefeitura uma solicitação com o dossiê com todos os documentos necessários. A criança se torna então beneficiária se frequentar o jardim da infância com assiduidade.

“Os pais não entregaram a documentação em tempo”, diz a mulher. A educadora crê que existe muita burocracia na forma como o programa foi concebido. “Na minha opinião, todas as crianças das zonas desfavorecidas teriam que se beneficiar dos vales, sem tanto atrapalho. Ninguém aqui é assalariado. As pessoas vão ficar cientes quando verem que uns receberam os vales e outros não”. Os pais precisam obter uma declaração de renda da tesouraria, bem como também uma prova que ateste que o pequeno está inscrito no jardim de infância. O dossiê com esses documentos, mais um pedido e uma declaração, deve ser entregue na prefeitura. Só que a tesouraria é em Vișeu de Sus, uma comuna situada a cerca de 35 quilômetros de Cornățea, e a prefeitura é em Poienile de Sub Munte, comuna a mais de 6 quilômetros de Cornățea. Para receber os vales, os pais tem que ir a prefeitura.

Uma vez de posse da lista com as crianças elegíveis, a educadora precisa completar os dados sobre a frequência. As crianças podem ter no máximo três faltas justificadas, mas que não ultrapassem metades dos dias de jardim de infância. Uma vez por ano, as crianças podem se beneficiar dos vales também caso faltem mais da metade dos dias de jardim de infância, por motivos médicos. Se tivesse que anotar a frequência verdadeira das crianças do povoado, nenhuma criança de Cornățea receberia o benefício. Para Monica é uma injustiça eles não receberem os vales. Diz que os pré-escolares de Cornățea teriam um acesso real à educação pré-escolar somente se existisse em primeiro lugar uma estrada de acesso entre o povoado deles e o jardim da infância. Então, faz o que acha que é certo para as crianças e registra a frequência regulada para todos os pré-escolares elegíveis.

Na medida em que a noite cai em Cornățea, só as crianças ficam fora de casa. O povoado inteiro parece um estúdio de filmagem no fim do dia, com aquelas casas de madeira que tentam reconstituir um vilarejo de outros tempos. As crianças brincam de pega no escuro e escutam música numa caixa de som em forma de carro de um menino. A caixa de som veio da Inglaterra, diz o menino com indiferença. Sua mãe trabalha lá.

Nas casas, as mulheres acendem lampiões a óleo. Cavalos selvagens relincham nos tapetes de parede com motivos bíblicos que decoram todos os cômodos. Os telefones celulares ficam pendurados em algumas janelas. Só naquela posição pode-se captar um pouco de sinal.

Nas manhãs os meninos nos assobiam, para que desçamos com eles até a escola. Meninos vão com meninos, meninas com meninas, interagindo de vez em quando na base do empurra-empurra, depois cada um segue na sua, enquanto nos vales a luz vai surgindo devagar.

Na nossa última em Cornățea, só as meninas nos esperavam no lugar de encontro. Debaixo de sombrinhas coloridas, porque já chove há mais de hora. Uma delas tem botas de borracha com lacinhos. E sempre que topamos com algum riacho pelo caminho, as meninas dão uma parada para limpar a lama das botas.

No outro vale, Ion Csorei desce até a escola de Cornățea sozinho, porque Florin, o irmão menor, não vai hoje. Quando se acorda, o menino de seis anos coloca no pescoço uma correntinha, com uma cruz grande, da qual uma vizinha zombou uma vez, mas o garoto nem se importa. É mais uma dia que começa no pé da floresta. Se a chuva cessar, terá que ajudar Ana com as batatas, com os bichos, mas enquanto chove, fica em casa sozinho, assistindo desenhos animados e comendo pufuleți [salgadinhos de milho expandido em forma de tubinhos]. A uma hora de caminha a pé longe dali, seus colegas de jardim da infância deixam os brinquedos de lado e tomam de assalto as cadeirinhas, para ouvir a educadora Monica Beucă ler a história da “Raposa que enganou o Urso” [conto popular do escritor Ion Creangă, publicado em 1880].

P.S. Ștefan Oncea ganhou mais um mandato de prefeito nas eleições locais de 5 de junho.

Material realizado no programa de Bolsas de Jornalismo Cívico, em memória de Oana Livadariu, edição 2016. As bolsas são oferecidas pela Associação OvidiuRo e The Alex Fund, com o objetivo de informar o público quanto à necessidade do acesso à educação pré-escolar para as crianças mais pobres da Romênia.

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