EU TAMBÉM VIVI NO COMUNISMO

Editado por Ioana Pârvulescu  

(Bucareste: Humanitas, 2015; 401 páginas)

Muitos daqueles que fizeram parte das gerações que viveram um bom pedaço da vida no comunismo não estão mais entre nós. É a última chance para que os pequenos testemunhos dos que ainda vivem sejam ouvidos, e que reconstituam a história da maneira como foi vivida por nós, do Leste Europeu, da maneira como verdadeiramente a experimentamos. No boletim meteorológico anunciam a temperatura, mas a ela acrescentam-se diversas circunstâncias que os termômetros não registram: vento, irradiação das paredes dos prédios, umidade etc. Os meteorologistas cravam: 39 graus Celsius, mas a sensação é de 43. Ou que a temperatura é de zero, mas feels like -10. É disso que este livro trata, sobre o que experimentamos de verdade por causa das pequenas circunstâncias que os termômetros da história nunca registram. E a temperatura histórica já era extrema, diga-se de passagem.

Reunimos neste livro fatias de vida cotidiana nos anos do comunismo. Para nós, pessoas do Leste Europeu, foi assim que o comunismo se concretizou. Foi assim que o vivemos, foi assim como o sentimos na própria pele. O esquecimento começou quando da queda do comunismo. Já amadureceram, até hoje, gerações que não têm mais o que esquecer: nasceram em outro mundo, “em um outro planeta”. Breve, todos esses detalhes desaparecerão completamente e nunca se saberá como as coisas aconteceram na realidade. É como se uma parte de nós se perdesse no vazio. Talvez, quem sabe, a melhor parte de nós, aquela que surge nos momentos difíceis, pesados (embora não me pareça que tenha sido exatamente assim para todos; ao contrário, existiam especialistas em manifestar o que há de pior no ser humano). E, de todo modo, não creio que alguém gostaria de ficar num campo de concentração apenas para mostrar suas qualidades. Apareceram, e ainda aparecerão, historiadores, sociólogos, toda a sorte de especialistas. Contabilizarão os mortos e os vivos, compararão os diversos custos imediatos e a longo prazo, analisarão as causas e efeitos e delinearão um quadro sintético da História. Do qual faltará um único elemento: nós, “homens do Leste”, mais precisamente os da Romênia. Faltarão, inevitável e absolutamente todos os detalhes concretos da vida de cada uma daquelas pessoas, que viveram o comunismo na própria pele. Mas mesmo nós, os que ainda se lembram de algo, não conhecemos as histórias do dia a dia uns dos outros. Chegou a hora de conhecê-las.

(fragmento do prefácio escrito por Ioana Pârvulescu, editora, págs. 9-10)

Nocaute. Sábado à noite, umas 9 horas, inverno de 1987. Estava sozinho em casa, meus pais tinham saído para algum lugar, não lembro aonde. Já há três horas sem energia elétrica. Coisa que, há anos, acontecia quase que diariamente, embora de Severin, aonde morávamos, até Porțile de Fier I [“Portas de Ferro I”, a maior usina hidrelétrica do rio Danúbio, inaugurada em 1972], de onde afluíam os giga watts, fossem apenas 10 quilômetros. Dentro de casa, 7 graus. Meus pais não quiseram colocar uma lareira no apartamento, como a maioria dos vizinhos do bloco. Dos blocos. Não sei se por motivos estéticos (era esquisito, montar a saída da chaminé em uma das janelas, e depois erguê-la, do segundo andar, até o céu) ou se por medo de incêndio. O certo é que era um frio do cão.

Estava vestido com roupas de sair; só que sem botas, e com umas meias grossas de lã, puxadas por cima de dois pares de meias felpudas, e no lugar de uma jaqueta de inverno eu vestia um pulôver, também de lã, através do qual nem uma bala ou traça poderia passar. E na cabeça um fez com pompom. Estava enfiado embaixo das cobertas tentando ler algo à luz do lampião. Fiquei assim por quase uma hora, sentindo frio. Decidi que tinha que me aquecer. Saí de baixo das cobertas e mexi os braços e pernas. Fiz umas flexões de joelho. Esfreguei as mãos. Agitei-me feito um possesso. Da minha boca saíam vapores. Era preciso tirar de mim aquele frio que tinha entrado até os ossos.

Comecei a fazer flexões de mão. Não deu certo, eu estava muito agasalhado. Tirei o pulôver de lã. Melhorou, fiquei com mais mobilidade. 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32. Um esforço sem qualquer efeito; Deu para cansar, mas não consegui me esquentar. Decidi fazer flexões com palmas, quer dizer, bater palmas uma vez e em seguida apoiar as mãos no tapete. E outra vez bater palmas e outra vez apoio. Era mais divertido, mais exigente, talvez também mais… fervente. Fiz umas séries. Parecia até que meu sangue tinha ficado um pouquinho mais veloz. Parecia até que era melhor assim. Fiz uma pausa e fui até a cozinha beber um pouco de água. Olhei pela janela: o bairro todo no maior breu. Em algumas janelas dava para se ver algo amarelo tremeluzindo. Velas, lamparinas a gás, lampiões. Ou talvez fosse o fogo das lareiras ou dos fogareiros. Voltei, tateando, até meu quarto. Cheirava a gás. Não de bujão, mas de lampião. Regulei a chama, deixando-a mais fraca. Mexi-me um pouco e pus-me de joelhos, ao lado da cama. Pronto para mais uma série de flexões com palmas. Quando fiz 10, dei uma parada. E considerei: e se eu tentasse bater palmas duas vezes? Pac-pac! Teria que me impulsionar com mais força, para ficar mais tempo suspenso no ar, ao ponto de conseguir bater palmas duas vezes e depois apoiar-me nelas. Qual a dificuldade? Eu era vigoroso e leve, 64 quilos. Inspirei aquele ar polar, me impulsionei o máximo que pude, pac-pac, porém não consegui mais colocar as mãos no tapete. Caí de queixo no chão. Acordei do nocaute quando as lâmpadas se acenderam. Estava sorrindo, a luz tinha voltado.  (Robert Șerban, escritor, do capítulo “1. Não há lugar melhor do que o nosso lar!”, págs. 17-19)

Foto: Alfredo Pardon, 1980.
Foto: Alfredo Padrón, 1980

Na loja Muzica. Como de costume, tudo tranquilo na loja Muzica. Nas prateleiras, junto aos discos com a música autorizada, encontro coleções de valsas e tangos célebres, canções românticas, discos com música romena pop e tradicional, música clássica e, muito raramente, algum disco de música folk. O pop-rock romeno apresenta-se de forma bem discreta.

No outono de 1976 tenho 16 anos e costumo ir à loja uma vez por semana, quando vou, sem sair de lá com grande coisa. A melhor aquisição: um Mircea Baniciu com capa amarela. Mariana Voinea, a insider do meu pai na loja e de quem compra discos de música sinfônica, nos telefona, numa tarde de setembro. “Chegou mercadoria. Parece que da Dum-Dum (uma gravadora de sucesso da época – nota minha). Mande o menino rápido. Não posso guardar nada, é muita gente”

Corro até à Muzica, pela Calea victoriei, e consigo entrar na loja com gente saindo pelo ladrão. As vendedoras retiram das caixas discos que, a alguns metros de distância, são difíceis de identificar. As pessoas se aproximam cada vez mais do balcão parecendo até que vão saltar sobre ele. A chefe da loja, que nunca tinha visto uma tal enxurrada de gente, chama, por via das dúvidas, a milícia [nome da Polícia romena na época comunista]. Quando chegaram os milicianos, uma das janelas da loja já estava em pedaços por causa das pessoas que ficaram de fora querendo entrar na marra. Não demora muito e quebram mais uma janela. Em seguida as outras. O número de feridos é considerável, mas ninguém arreda o pé. A turma invade a loja, onde os que estão nas fileiras da frente começam a vislumbrar as primeiras capas: Boney M., ABBA, Pussycat, Baccara, Bay City Rollers, Emerson, Lake & Palmer, Elvis Presley, Hot Chocolate, La Bionda, Olivia Newton-John. A pressão dos compradores de trás aumenta.

Minutos depois, a coisa desanda. A turma simplesmente começa a se autoatender, sob o olhar impotente das vendedoras. O negócio é sair com algo, não importa o quê. Minha mão se insinua pelo matagal humano e pego um disco qualquer, igual a todo mundo. Queen, A Night at the Opera. Respiro fundo e repito a operação. Led Zeppelin, Houses of the Holy. A terceira tentativa falha, porque sou deslocado por dois rapazes bem fornidos e mal encarados. Vou ao caixa e espero minha vez de pagar. Uma hora e quinze minutos na fila. Ainda que os discos sejam simplesmente saqueados das prateleiras ou do chão, ninguém sai sem pagar.

Três dias depois, estou de novo na Muzica, para comprar um disco de tangos para minha mãe. A loja está como de costume. Tudo tranquilo. Peço o disco com tangos célebres na mesma hora quando um senhor com mais de sessenta anos tenta devolver uma mercadoria que parece não ter sido do seu agrado. “Senhorita, não quero dinheiro de volta, mas me dê outra coisa. Não consigo escutar isso.” Dou uma olhada no disco em questão. Pink Floyd, The Dark Side ofthe Moon.  Provavelmente aquele senhor tinha comprado o disco às cegas, no tumulto do início da semana. Felizmente, tenho dinheiro suficiente para comprar tanto o disco de tangos, quanto o álbum do Pink Floyd. (Radu Paraschivescu, escritor, do capítulo “5. Tempo livre”, págs. 67-68)

Cadê a inundação? Eu era estudante no final dos anos 60 e morava num bloco na Rua Pictor Mirea, não muito longe do Arco do Triunfo. O bloco tinha, no subsolo, uma fileira de quartos planejados como anexos (para os empregados domésticos) dos apartamentos de cima. Todos os quartos do corredor do subsolo estavam ocupados por estudantes, inquilinos dos proprietários do térreo e do primeiro andar. Todos tínhamos acesso a um único banheiro, com um chuveiro ao lado. A vida era bela, cada um na sua, tínhamos nos tornado amigos e fazíamos a corte à nossa única vizinha, uma secretária, enrolada, infelizmente, com um escandinavo mais velho que prometia, provavelmente, tirá-la do país.

Vivíamos muito modestamente, mas num bairro nobre, quase “residencial”. Na casa da frente residia o general Ion Ioniță, o então Ministro da Defesa. Numa noite choveu a cântaros, enchendo todo o subsolo com a água mal escoada pela canalização – eternamente deficitária – da capital. Sorte que estávamos na época de provas, por conseguinte acordados, de modo que nos mobilizamos rapidamente e, munidos com bacias, panelas e baldes, começamos a evacuar o dilúvio que tinha chegado até os joelhos. Para o nosso estupor, justamente quando estávamos em plena ação, surgiu um grupo de bombeiros. Pensamos que algum dos proprietários tinha-lhes pedido ajuda (embora fosse improvável a celeridade com a qual tinham atendido o chamado para um subsolo mixuruca). Fato é que botaram para funcionar uma bomba eficiente, que, em tempo recorde, tinha sugado toda a água do corredor, enchendo com ela o caminhão cisterna com o qual chegaram. A operação estava praticamente finalizada quando, de repente, aparece na escada um soldado desfigurado de pânico, gritando aos quatro ventos: “Stop! A inundação não é aqui! É no porão do camarada general Ioniță, defronte!”. Após um breve momento de desorientação, os bombeiros perceberam a gafe, recolheram os “apetrechos”, mas se deram conta, de última hora, que não tinha mais espaço no caminhão cisterna para um suplemento de líquido. Que se havia de fazer? Jogaram de volta a água recém-evacuada e foram embora, preparados para um novo ataque, no porão do dignitário da casa em frente.

As coisas reentravam na normalidade. O filme voltava: tínhamos de novo água até os joelhos e nos esforçávamos, com o material que tínhamos a mão (bacias, panelas, baldes), em “liquidar” o líquido rebelde, que invadira o subsolo. Depois do que, retomamos o estudo para a prova do dia seguinte (Andrei Pleșu, escritor, do capítulo “9. Fora de controle”, págs. 116-117)

One Reply to “EU TAMBÉM VIVI NO COMUNISMO”

  1. Jorge Expedito Da Silva says: Responder

    Nada justifica privações por determinados ideais e não devemos partir de um fato para generalizar. O capitalismo teve e tem suas mazelas, de repente até pior que o comunismo!!! Eu passei fome e muito mais frio em um país capitalusta continente como meu.

Deixe uma resposta