“Muitos dizem que querem voltar”

Cristina ŞTEFAN entrevista Dragoș ASAFTEI

 

Publicado na revista Dilema Veche” , nr. 646, 7-13 de julho de 2016

 

Ano passado, junto com Alex Filip (blogueiro e proprietário da agência Eventur), o fotojornalista Dragoş Asaftei começou um projeto chamado Travelers of Bucharest (facebook.com/tobucharest). Começaram nas ruas, fotografaram pessoas e juntaram histórias dos turistas que visitam nossa capital, a fim de descobrir sobre o que temos de bom e o que não, o que mais gostam daqui e em que podemos melhorar.  

Bucareste é uma cidade atraente para turistas de outros países?

Claro, exatamente por isso o número dos que escolhem Bucareste como destino cresce continuamente e de maneira considerável ano a ano. Já nos encontramos até agora com mais de 1700 turistas estrangeiros, conversamos com cada um deles, e conseguimos descobrir os motivos que fazem com que eles venham ou voltem para cá. Muitos se surpreendem com o que veem aqui, porque no mais das vezes chegam com uma expectativa quase zero. Partem de Bucareste encantados e dizem que querem voltar, e isso é uma das melhores “propagandas” que nossa cidade pode ter.

Qual é a história do Travelers of Bucharest?

Alex Filip me contou, no começo de 2015, sobre uma ideia que tinha a ver com os turistas que vem a Bucareste. Sentamos juntos na mesa e da discussão saiu o Travelers of Bucharest, uma espécie de “Humans of New York” readaptado, cujo objetivo é saber os motivos pelos quais os estrangeiros escolhem nossa capital como destino turístico e mudar a mentalidade dos locais. Muitos bucarestinos ainda estão muito desapontados com a cidade e olham mais para o lado ruim do que para as coisas boas, que começam a aparecer cada vez mais e em várias frentes. É compreensível essa decepção, se pararmos para pensar um pouco, mas tanto eu quanto Alex acreditamos que identificando o lado bom e melhorando o lado ruim, podemos mudar muita coisa, só mirar no que é negativo não leva a lugar nenhum.

Saímos semanalmente pelas ruas da cidade para conversar com turistas estrangeiros e conhecer Bucareste a partir da perspectiva deles, sobre o que é bom e sobre o que não é tão bom. Os estrangeiros são bem abertos. Raramente alguém se recusa a falar com a gente. Às vezes ficamos de conversa uma hora e meia com eles e é gratificante ver como eles nos contam, de uma maneira bem relaxada, sobre a experiência deles em Bucareste ou sobre outros episódios que viveram aqui na Romênia ou em outras viagens pelo mundo. É bem verdade que às vezes somos olhados com certa reticência. Provavelmente alguns ainda pensam que Bucareste é um lugar onde você vai ser inevitavelmente roubado. Nós falamos que não é mais assim – e o mesmo dizem os estrangeiros que chegam aqui com certo receio, mas depois se dão conta de que essa má fama é apenas uma imagem do passado, mas que se imprimiu bem na memória coletiva.

Acredito que o mais importante é saber qual a impressão final que o turista leva de Bucareste. A maioria nos diz que ficaram encantados com a cidade e que pensam em voltar ou então recomendar aos amigos. Os festivais em Bucareste atraem muitos turistas. O festival “George Enescu” é o melhor exemplo. Vi recentemente muitos turistas no B-FIT In The Street, mas também no Street Delivery. É um sinal de que os turistas se interessam por eventos desse tipo. Na sua caminhada para o título de Capital Cultural da Europa em 2021, o ARCUB [Centro Cultural do Município de Bucareste] está preparando uma série extremamente atrativa de eventos culturais dedicados tanto aos que moram aqui quanto aos estrangeiros. E os resultados positivos não param de aparecer.

Foto: Dragoș Asaftei

Há muitos anos, se dizia que os estrangeiros vêm para cá por causa da vida noturna. Ainda é válida essa ideia?

Sim, com certeza. Principalmente no verão, o Centro Velho fica cheio de estrangeiros. Muitos dizem que vêm mesmo para cair na farra e contam que Bucareste é superior a outras capitais nesse capítulo. Turistas de Israel ou da Alemanha, gente que entende de festa, chegam aqui e dizem que se sentem muito bem. A vida noturna é, sem dúvida, uma das atrações de Bucareste para os estrangeiros.

Eles se sentem atraídos pela oferta cultural de Bucareste?

A oferta cultural os atraí sim, como eu tinha dito antes, porém quando o assunto são os museus, frequentemente escutamos desapontamentos. Seja pelos horários esquisitos, seja pelo fato de as visitas guiadas não serem envolventes. Acho que primeiro temos que aprender mais nessa esfera, e só depois ter a pretensão de que os estrangeiros passem a considerar os museus como realmente dignos de interesse. É verdade que temos alguns que começaram a nivelar por cima – o Antipa, o Museu Nacional de Arte, o Museu Cotroceni – mas é preciso uma dose contínua de mais vontade por parte de todos.

Você elaborou um mapa turístico de Bucareste, e também um aplicativo de telefone.

Depois de muitos turistas nos contarem que não encontram informações suficientes nos guias que compram, pensamos em editarmos um e fazê-lo a partir das lacunas apontadas por eles. Assim nasceu, em agosto do ano passado, Bucharest City Guide, que chegou, impresso, nas mãos de mais de 5000 turistas, e no formato digital para aproximadamente uns 20.000. Estamos falando de um guia premium, com um vasto conteúdo e qualitativo, atentamente selecionado por nós. São pontos turísticos mais ou menos conhecidos, itinerários que propusemos aos turistas, recomendações e impressões de outros estrangeiros que visitaram Bucareste.

O guia compreende, primeiramente, as atrações já consagradas (a Casa do Povo, o Centro Velho, o Ateneu Romeno, a Calea Victoriei, o Parque Herăstrău, a sede do CEC, o Museu de História, o Museu Antipa, o Arco do Triunfo etc., na ordem aproximada de popularidade entre os estrangeiros), e depois uma série de outras menos conhecidas, mas que merecem ser visitadas. A Casa Melik (Museu Theodor Pallady), a Biblioteca da Faculdade de Letras (de uma beleza extraordinária e com um acervo de mais de 100.000 volumes) ou o Palácio Noblesse são algumas delas. E os bucarestinos também precisariam conhecê-las, pois a maioria delas se localiza em zonas bem movimentadas.

Depois, partindo desse guia, que para nós foi um importante sucesso, lançamos, em janeiro de 2016, Bucharest City App, um aplicativo disponível gratuitamente, dedicado aos turistas, mas também para os locais. Os viajantes estrangeiros encontram tudo que precisam nele: atrações turísticas, itinerários, restaurantes, pubs, o calendário dos espetáculos de teatro ou a programação do cinema, uma lista completa dos eventos, farmácias (inclusive as non-stop), consultórios odontológicos, salas de fitness, parques de aventura, piscinas e por aí vai.

Você notou se os turistas tem curiosidade de descobrir também coisas que não estão no mapa?

Claro, todos somos curiosos em querer descobrir novos lugares, menos conhecidos, nas cidades para onde viajamos. Os turistas nos dizem que o que mais gostam de explorar – sem um destino certo – são as ruas e passagens do Centro Velho ou as ruas circunvizinhas. Um grupo de turistas nos contou que dia desses foram numa festa em Ferentari, organizada por alguns jovens com iniciativa [segundo uma ideia de Adrian Schiop, tirada justamente de seu romance, Soldaţii – n.r.]. Estavam encantadíssimos por ter descoberto essa outra face da cidade. Daqui para frente depende também de nós oferecer aos estrangeiros mais lugares de visitação e mais atividades fora do eixo central. Entendi que o plano do ARCUB do qual falei é exatamente esse, organizar eventos atrativos também em outras zonas de Bucareste, fora do centro.

Do que os turistas gostam e do que não gostam em Bucareste?

Gostam da história da cidade, das pessoas (hospitaleiras e que sabem falar inglês bem) e da arquitetura. Também gostam das passagens baratas de avião e também porque daqui pode-se chegar rápido em Bran, no Drácula. Não gostam dos taxistas, da desorganização e do fato da informação ser insuficiente nas ruas, no centro, no transporte público ou nos museus.

Foto: Dragoș Asaftei

Conte-nos algumas histórias que te impressionaram.

Vou dizer duas. A primeira, bem no início do projeto. Estamos na Ponte Izvor e vimos um turista asiático que olhava para o céu com a maior atenção. Nos permitimos incomodá-lo e perguntar o que estava fazendo. Disse que vinha de uma cidade próxima a Pequim e que fazia anos não via o sol por causa da poluição. Isso foi uma lição para a gente.

Depois, em agosto, encontramos Nicolas, um turista francês que nos disse que tinha vindo para cá justamente para mostrar a um colega dele, romeno, que Bucareste é uma cidade que merece ser visitada. O colega dele, que tinha saído da Romênia há anos, vivia dizendo que Bucareste é feia, que não tem nada para se ver e que não valia a pena visitá-la. Nicolas foi embora encantado com o que viu e disse que certamente voltará para mais outra visita.

Como poderíamos fazer com que essa cidade fosse mais acessível para os estrangeiros?

Oferecendo-lhes o que mais precisam: acesso rápido e seguro do aeroporto até o centro, informações mais completas nos museus e nos transportes públicos, melhores condições nos grandes eventos. Isso para começar. Depois, precisaríamos ser um pouco mais abertos e mais conscientes das coisas boas que temos por aqui. Respeitá-las e zelar por elas. Dessa forma vamos mostrar aos estrangeiros que realmente nos importamos com a nossa cidade.

E do que você gosta em Bucareste?

Gosto do ritmo que a cidade te induz, gosto por ela ser cheia de vida e de ser bem difícil se entediar aqui. Como fotógrafo, fico contente por minha cidade ter tanto a oferecer. Isso se você tiver paciência com ela, se você tiver paciência para descobrir lugares novos e se você tiver paciência com você próprio. Bucareste pode ser melhor, mais bonita, mais receptiva, mas isso depende de nós, não somente dos outros.

 

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