PÁSSAROS DE BUCARESTE

Iaromira POPOVICI entrevista Vlad CIOFLEC

Publicado na revista Dilema Veche” , nr. 707, 7-13 de setembro de 2017

O que o levou a se interessar justamente por pássaros?

Os pássaros me livraram da depressão. Como herpetologista, no inverno fico muitos meses de bobeira, não dava para fazer trabalho de campo. Sempre gostei de pássaros, mas me pareciam difíceis de estudar. Comecei com o birdwatching no inverno, vinte e três graus abaixo de zero, quando todos os pássaros ficam parados, em concentrações grandes nos lagos. Encontrei um universo extraordinário. Vi então a mais rara gaivota da época, uma de cabeça preta, que tinha vindo de algum lugar do Atlântico, e que não tinha uma perna. Juntou-se a um grupo de gaivotas romenas que por lá passavam o inverno. Sendo minha primeira saída para observar pássaros e já vendo uma raridade dessas, fiquei contagiado. Desde então tive essa percepção de que os pássaros farão parte de minha vida e procurei me aproximar de sociedades de estudo e de preservação de pássaros, de fotógrafos da natureza daqui e do estrangeiro. Formou-se uma turma interessante em Bucareste, com a qual começamos a viajar pelo país para observar pássaros, mas, nesse meio tempo, nos demos conta de que observar é uma parte da coisa, fotografar é interessante. Contudo, quando tenho chance de falar com alguém por meia hora sobre pássaros, essa é a parte que gosto mais. Ser por alguns momentos o advogado das espécies. Desse jeito, os pássaros entraram na vida da minha família, minha esposa é birdwatcher, meus sogros também, minha filha é, meus vizinhos me contam que pássaros têm visto, e até cheguei a fazer tatuagens de pássaros. Não consigo começar o dia sem pássaros. Enquanto o café esquenta, fico olhando que pássaros estão na árvore em frente a nossa casa. Quando saio de carro até o supermercado, fico olhando os pássaros que estão pelo caminho. Você vai rir, mas mesmos num desses percursos cotidianos, pode topar com espécies raríssimas, inéditas para a fauna de uma zona. Você pode vê-los, por exemplo, quando leva seu filho até a biblioteca. Por exemplo, nesta primavera vi uns estorninhos-rosados: uma espécie originária da Índia, rosa, nunca registrada nas pesquisas orinitológicas da Romênia.

Estorninho-rosado – Foto: Vlad Cioflec

Em Bucareste existem muitos pássaros? Quais as regras do birdwatching?

Bucareste está muito bem nesse quesito. Por conta dos velhos parques, Herăstrău, Tineretului, o Jardim Botânico, aonde os pássaros se aninharam e se acostumaram a usá-los como zonas de passagem, e também em Văcărești, onde existem pássaros aquáticos. Cisnes, garças – além dos tentilhões e chapins-reais dos blocos. Não encontramos pássaros por todos os lados, mas, no lugar onde eles estão, existem reservas de biodiversidades extraordinárias. Quando partimos atrás de pássaros, podemos esquecer da última fatura que não pagamos, do deadline no trabalho, de que temos um encontro com alguém em alguns minutos. Não escutamos mais o telefone tocando, só o gorjear dos pássaros. Um erro que muitos principiantes fazem é se concentrar no que não podem ver: até hoje não vi cisnes de inverno, por exemplo. Mesmo que no dia em questão vi 20-30 outros pássaros. Esse tipo de negativismo não pode ter vez. Você não faz birdwatching por fama e sim por prazer pessoal, para ter, assim, um momento de iluminação. Uma ida ao supermercado se transforma numa verdadeira expedição. Ficar na fila do pedágio quando três pelicanos passam por cima de você se torna um momento bárbaro. Para observar os pássaros é preciso ter um binóculo, que aumente de oito a dez vezes, e um livro de pássaros. Para que você possa falar para outros sobre o que viu. Assim você poderá contagiar mais gente. Ainda é necessário uma mochila básica, para guardar um boné, uma roupa, um sanduíche, uma garrafa com água. É bom ter tudo isso com você. Quando você coloca a mochila nas costas, pronto, entrou no universo do pássaros.

Se quer ver pássaros de pequeno porte, que sejam ligeiros e coloridos, é preciso ir até uma zona com muitas árvores ou arbustos. Se o que procura são pássaros maiores, garças, garça-branca-grande, cisnes, tem que ir para um olho d’água, até Văcărești por exemplo, ou até o Lacul Morii. Cada bairro de Bucareste tem sua especificidade em matéria de pássaros.

Parque IOR – Foto: Wikimedia Commons

Quais espécies podemos encontrar em Bucareste?

Mais de duzentas. Bucareste está muito bem nesse quesito. Só não pense que poderá ver todos eles num mesmo lugar. Tem que bater perna. Agora os pássaros urbanos já se acostumaram com as pessoas e não se assustam mais. Em outros tempos se matava mais. As maiores vítimas são os pequenos: tentilhões, pardais, chapins. O pardal, na verdade, não está tão bem assim quanto a gente pensa: é dependente do meio urbano, mais não da forma como vemos no nosso século, com edifícios de cimento e vidro. Vive nas rachaduras das velha armações, por baixo das telhas, associadas de certa forma com a velha arquitetura. Do momento em que as irregularidades dos edifícios foram eliminadas, lhes retiramos os lugares aonde faziam seus ninhos. E isso se reflete na população dos andorinhões, que se agrupam nos velhos edifícios com fissuras do centro de Bucareste.

No inverno, sendo a temperatura nas cidades mais alta um grau em relação à media dos arredores, é grande o número dos tentilhões em Bucareste, que vem aqui à procura de alimento. Nos parques, nos terrenos baldios. É um prazer ver uma revoada de tentilhões, são muito coloridos, parecem uma árvore de natal. E, se você não tem intenção de molestá-los, eles permitem você se aproximar deles até uns dois ou três metros de distância.

E temos as gaivotas, que no inverno em Bucareste são milhares. Colonizaram a capital lá pelos anos 60, vindas do mar, encontraram aqui os lixões, as gaivotas cinzentas. Depois começaram a construir ninhos nos terraços dos blocos residenciais. Por quê? Por que nós, nos terraços, colocamos areia, cascalho. Visto do ponto de vista de uma gaivota, é como uma praia. Chegaram quando a construção de blocos residencias se expandiu. Comem de tudo. São os sanitaristas desses lugares. Se chegam num lago, se alimentam de algas e peixes, um pedaço de fast-food, um resto de maçã. Um bando de gaivotas limpa sua zona. Preferem a água, mas podem ser vistas também nos campos.

Periquito de colar – Foto: Vlad Cioflec

E ainda podemos ver gralhas…

São muito interesantes. Tão caluniadas quanto interssantes. São muitas, mas não tantas quanto queremos crer. Saem de manhã cedo para o trabalho, às 7, e voltam na mesma hora que a gente. Voltam às 17 e atravessam a cidade de sudeste a nordeste, onde passam o inverno nos álamos e em algumas florestas espaçadas.  Passeiam regularmente por entre os terrenos agrícolas, de onde comem, vejam só, as pragas do solo, e depois seguem rumo e passam o inverno. Ainda cremos em alguns mitos sobre elas, que não são verdadeiros. As gralhas são muito inteligentes e longevas, porque aprendem a evitar os perigos. Quando trabalham, metem o bico na terra, a revolvem e procuram insetos. Nos ninhos de gralhas, quando abandonados, vêm gaviões, vêm falcões. Muitas espécies predadoras raras aprenderam a utilizar esse recurso.

Sobre as pegas todo mundo conta que roubam objetos brilhosos e passarinhos dos ninhos. Nos deixamos levar por essas exceções e tratamos as pegas como uma ave daninha e só. Mas se olharmos para as pegas com mais atenção, observaremos que são bonitas como papagaios. Tem cor azul, verde, roxa, depende de como a luz se reflete. E então, quando contemplamos uma pega por mais de um segundo, observamos que é uma ave completamente diferente do que escutamos sobre ela.E quando ela, por sua vez, nos observa, percebemos que há uma fração de inteligência ali, e que ela nos estuda na mesma medida em que a estudamos. Então, já não é mais uma ave daninha.

Gralhas – Foto: Mirela Britchi

E os pombos?

É um problema espinhoso. Criou-se essa cultura, de irmos no parque e alimentar os pombos. Esses que alimentamos são pombos domésticos que se tornaram selvagens. Foragidos das gaiolas, há dezenas, centenas de anos, viraram comunitários. Mas não são selvagens. Por exemplo, em Londres é proibido alimentá-los, porque é algo em detrimento dos pombos verdadeiramente selvagens, o pombo dos buracos das árvores, de gola, ou a rola-turca. São um produto da sociedade humana.

A rola-turca, por outro lado, é uma história bem sucedida. Veio da Ásia Menor no início do século. Não confundir com a rola-comum, que existe há séculos por aqui. A rola-turca aprendeu a explorar justamente o meio antrópico, é uma espécie sedentária, pode ser vista em nossas paragens no outono, inverno, primavera, verão. É uma espécie discreta, não fica em cima de você, não emporcalha. É um recém-chegado pela via natural. Ninguém a trouxe e a soltou por aqui, como os periquitos de colar do Parque Tineretului. Temos periquitos em Bucareste, livres, que se aninham nos buracos das árvores, se evadiram há dez anos, se alimentam juntos. Nos abrigos de pássaros são eles que mandam, enxotam os outros. Em Londres, a população dos periquitos chega a dezenas de milhares, que fazem ninhos nos buracos das árvores. Você se dá conta de que se torna um problema ecológico, trata-se de uma espécie libertada de maneira mais ou menos intencional. São pássaros que precisam de ser administrados, enquanto o resto dos pássaros devem apenas ser contemplados.

Pombos – Piața Rosetti

Nos quintais, até nos blocos, ouvimos melros…

Ter um melro no quintal é um prazer. Na casa dos meus sogros tem um que vai atrás do meu sogro e o ajuda na jardinagem. É a mesma parelha de melros que lá está há anos. Cantam de um jeito extremamente bonito, o macho tem aquele contraste de laranja com preto, a fêmea ficando mais escondida, para nao chamar a atenção – é assim o mundo dos pássaros. Os melros se alimentam com insetos e com todo o tipo de invertebrados.

E quais pássaros aquáticos encontramos em Bucareste?

Começamos a ter mais espécies nos parques: garças, biguás… Isso demosntra que Bucareste está numa ascendente no que toca a questão dos espaços verdes: não estamos tal mal assim como achamos. Pelo menos as populações de pássaros demonstram que estamos bem. Claro, podíamos estar melhor… Pararam de canalizar o Dâmbovița, não existem mais obras. Existem também pássaros trazidos, ornamentais. Viveiros de pássaros crescem espécies coloridas que são soltas na primavera e recolhidas no outono. Só que no outono você não verá exatamente a mesma quantidade de pássaros de antes, um ou dois vão escapar. Metade desaparecerá, a outra metade encontrará meios para sobreviver. Topamos, aqui em Bucareste, com espécies americanas que cosntruíram ninhos. O pato com olho de gavião se fixou no Dâmbovița. Quando alguns escapam, ou vai formar uma nova população, ou vão se misturar com o que temos aqui. Isso significa que não haverá mais nem cavalo, nem jumento, e sim algo que não será mais protegido por lei. Mais sensíveis às doenças, às temperaturas. Os cisnes são os que foram trazidos, como espécies ornamentais, daqueles que a gente vê nos parques e damos comida; os verdadeiramante selvagens são os que vivem nos juncos, que temem o homem. Não é difícil distinguir as duas variedades.

Gaivotas – Foto: Florin Ghindă

E as aves migratórias?

São como a Páscoa e o Natal para o birdwatcher. Então você não pode prever como será. Em cada semana um bando de pássaros deixa o norte do continente e voa em direção à África. Você pode acordar com o céu repleto de grous. Grous em Berceni. A andorinha   rosada, uma espécia africana, vista em Văcărești entre outras mil andorinhas comuns. E com isso vê-se de certa forma a qualidade dos espaços verdes e das zonas naturais. Quando há uma diversidade no habitat, quando há uma zona de campo, então muitas aves migratórias podem parar por lá. Depois de um período de tempo ruim, nas áreas onde a vegetação é um mosaico, você pode ver espécies asiáticas, africanas e americanas em Bucareste.

E o voo?

O voo sempre foi fascinante. Os pássaros podem fazer algo que não podemos: viajar milhares de quilômetros com a maior desenvoltura. Voar por dias a fio sem fazer uma pausa. Eis uma das coisas que faz do birdwatchingalgo tão interessante: quando você vê um pássaro que veio de uma zona próxima ao Círculo Polar e se encontra a alguns metros de você, de certa forma ele te aproximou da zona ártica, aonde, provavelmente, você nunca colocará os pés. Tem pássaros que voam por prazer, como os corvos. Às vezes, de tédio, começam a brincar ou a simular briga só por galhofa.

E com o gorjear, o canto dos pássaros?

A maioria dos pássaros têm cantos muito interessantes. O estudo dos pássaros te leva até certo ponto, de onde começa a contemplação. Ter 300 espécies e que elas se entendam entre si… Você pode perceber pelo canto quando o pássaro está estressado, assustado, se gorjeia só para marcar o território ou se é por prazer. Nem todos cantam para atrair o parceiro ou para anunciar a disponibilidade de alimento. Descobriu-se que alguns pássaros ainda cantam, assim, só para eles próprios. Baixam o tom e soltam um cantozinho.

VladCioflec é consultor científico da Associação Parque Natural Văcărești, de profissão herpetologista e, há muito tempo, apaixonado (leia-se obcecado) por pássaros.

Deixe uma resposta