REI MIHAI I

Textos de Cătălin Tolontan

A HOMENAGEM DA GAZETA SPORTURILOR NA MORTE DO REI MIHAI: “O CARÁTER É DESTINO”

A honra de termos sido contemporâneos e a alegria de termos sido compatriotas

Do blog TOLO.RO – postado no dia 05 / 12 / 2017

“O caráter é destino”

Estas palavras abrem o diário da Rainha Maria, esposa do Rei Ferdinand e avó do Rei Mihai I, que hoje deixou esta vida, aos 96 anos de idade.

E talvez nada melhor exprime o que significou Mihai I para os romenos do que estas palavras.

Seu destino resistiu aos tempos, às provações e às maiores injustiças.

Este jornal foi criado em 1924, apenas três anos após o nascimento de Mihai I. Amanhã, Gazeta dedica ao Rei uma edição especial.

“O caráter é destino”.

O caráter do Rei foi forte sem maldade e sábio sem soberba.

Seu nome está ligado ao esporte romeno, da paixão pelo esqui e pilotagem de automóveis até os encontros com grandes campeões, como Ivan Patzaichin ou Ilie Nastase, que hoje estão de luto.

Na verdade, quem não está? Numa declaração curta, o ator Marius Manole confessa que “como milhões de romenos, fui uma criança que cresceu sem saber praticamente nada sobre o rei, até vir a Revolução. Contudo, olhando hoje para a Romênia, provavelmente teríamos tido melhor sorte com o Rei Mihai”.

Mais do qualquer coisa, o Rei Mihai foi exemplo de modéstia, discrição e de confiança na capacidade dos romenos e em sua vocação democrática.

Não esqueçamos. Ele nunca deixou de acreditar que poderíamos ser um país onde o povo fosse bem representado e respeitado.

Em abril de 1992, quando retornou à pátria após longos anos de exílio, em plena Páscoa, o Rei Mihai fez um breve discurso.

Um milhão de pessoas nas ruas de Bucareste escutaram, impressionados, o que nunca tinham ouvido de qualquer outro mandatário: “Amo vocês!”.

Hoje, quando a alma de Sua Majestade se ergue ao céu, podemos devolver-lhe esta grande honra e alegria de termos sido não só contemporâneos, mas, especialmente, compatriotas: “Nós te amamos!”.

Sim, o caráter de um país é o seu destino.

AS PEQUENAS COISAS IMORREDOURAS, DE ENGENHEIRO, DO REI MIHAI

Uma lembrança com Sua Majestade, o homem queacreditávamos ser imortal

Do blog TOLO.RO postado no dia 06 / 12 / 2017

 

O lugar foi incomum.

Tive este privilégio, de estar perto do Rei Mihai.

Foi em Nova York, no final dos anos 90, quando se organizava um festival dos romenos no exílio.

Vários jornalistas participaram de um encontro com Sua Majestade.

Eu trabalhava na Media Pro. De outros jornais me lembro de Sorin Roșca Stănescu e de Radu Tudor, contidos e emocionados, como todos os presentes. O primeiro era alguém muito próximo da Casa Real.

O encontro aconteceu num barco, não digo iate que não foi o caso, um navio de pequenas dimensões que dava uma volta pelo sul de Manhattan. Sua Majestade apertou a mão de cada um de nós.

As torres do World Trade Center ainda vigiavam a ilha.

Era noite e as luzes da cidade refletiam-se na água, numa dança onírica.

Muita gente noconvés estreito do navio. Desci três degraus e cheguei na cabine do capitão.

Estaquei.

À direita do homem que conduzia o barco estava o Rei Mihai.

Vestido de maneira simples, com uma calça de tecido e um blazer xadrez, Sua Majestade parecia um lorde empobrecido, como no filme “Os Vestígios do Dia”, baseado na obra de Kazuo Ishiguro.

Sentado numa cadeira alta, sem espaldar, o Rei falava tranquilamente com o capitão.

Discutiam sobre o barco, motor, comandos e outras “banalidades” técnicas das quais eu não entendia nada.

Mihai I perguntava-lhe educadamente, o americano respondia e o homem de 78 anos escutava com atenção.

O Rei tratava o profissional à sua frente com uma deferência que deixava quem visse a cena de olhos marejados.

Falava elegante e amistosamente com o “Seu Manivela”. Num inglês impecável falava o romeno de sangue real.

O inglês perfeito, o bom senso e ausência de revanche foram notados pelos jornais do mundo todo, nos longos anos de exílio. “A sua bondade e o seu perdão venceram o mal”, como diria a Princesa Margareta em sua primeira mensagem, depois da morte do bom rei.

Que estranho destino tivemos!

Aos 70 anos desde a abdicação forçada, com gerações se sucedendo e o mundo tendo mudado tantas vezes, este homem “que atingiu a idade dos patriarcas”, como o caracteriza Emil Hurezeanu, permaneceu o chefe de estado romeno que melhor sabia falar inglês.

Acompanhei a cena longamente, alguns metros atrás, sem saber como respirar, talvez pelas orelhas.

A conversa técnica, de te desorientar por completo, durou quase todo o tempo do cruzeiro, umas duas horas. Porque depois do curto protocolo de recebimento dos hóspedes, o Rei se refugiara lá, na cabine do capitão.

E não saiu mais.

Os dois continuaram a se inclinar um ao outro, com a cumplicidade dos mestres projetados por um hobby comum num universo próprio só deles.

O mundo desaparecera.

Fui educado nas escolas junto com a geração de engenheiros competentes na Romênia comunista.

Olhando para o Rei Mihai, reencontrei os colegas, os amigos, os parentes apaixonados por mecânica, eletrônica, motores, pela linguagem de programação e equações, pessoas de uma compreensão técnica e prática esmagadoras para alguém com eu, com duas mãos esquerdas.

Pela janela de vidro aberta do barco se avistavam centenas de arranha-céus iluminados, o espetáculo da cidade de Nova York revelado frente à proa.

E no fundo carregado víamos a meio perfil, abrigado por cima do volante de controle, o homem de blazer britânico, os olhos pregados nos pequenos mostradores redondos, onde lia a vida interna do motor.

Disse para mim mesmo que a paixão é a fórmula secreta da satisfação espiritual.

Amar algo pequeno quando o mundo ao seu redor desaba.

Apegar-se a um parafuso, um livro, um motor.

Ontem, minutos depois da morte do Rei, no estúdioda Digi 24 apareceu Elena Vijulie.

A jornalista estava comovida.

Elena lembrou de uma vez em que filmou um material sobre a cruz no pico Caraiman.

O monumento nos montes Bucegi foi concluído em 1928, iniciativa dos avós do rei Mihai: a Rainha Maria e o Rei Ferdinand I da Romênia.

Um dos idosos que conheciam a história da cruz confessou à jornalista: “Não foi mais renovada nesses quase 100anos. Achamos que é eterna. Já nos acostumamos tanto com ela que a consideramos eterna”.

“Era assim que também nós considerávamos o Rei Mihai. Como sendo algo eterno, uma dádiva que levaremos conosco todo o tempo”, disse Elena Vijulie.

Uma observação de dar arrepio na espinha.

Porque, como escreveu Alina Mungiu Pippidi, “No dia quando morre o Rei, pense na sua própria morte”.

E depois começou a nevar.

Primeiro nas montanhas. Ontem à noite, quando as lâmpadas da Cruz se acenderam, a neve continuava a cair à toda, guiada pelos ventos do platô dos montes Bucegi.

Também no Castelo Peleș nevava; parecia que alguém colocava flocos de neve com as mãos na correspondente da Digi.

E de repente, do nada, começou a nevar em Bucareste.

Flocos de neve irromperam sem avisar na calçada em frente ao Palácio Real, a primeira neve desse inverno. Foi como uma pancada estranha, cinco minutos deve ter durado a neve, depois o céu se abriu novamente e as estrelas saíram.

Ele não mais está entre nós.

Partiu o Rei que amava as pessoas, as pequenas coisas da engenharia. Mais que isso, partiu aquele que foi leal a sua pátria, que o considerava imortal.

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