A escravidão dos roma: do reconhecimento à conciliação

A reconciliação entre os roma e os não-roma só poderá ocorrer quando ambas as partes reconhecerem e assumirem um passado doloroso.

Por Delia Grigore

Ilustração de Renata Mihaly

Delia Grigore é etnóloga, antropóloga e diretora do Centro Roma Amare Rromentza. Depois de 30 anos de ativismo roma, no qual o movimento tentou prover e desenvolver todos os serviços e políticas públicas que o estado romeno não lhes assegura, Delia sente que os esforços dos intelectuais roma raramente se fazem ouvir. A reconciliação entre os roma e os não-roma poderá ocorrer, acredita ela, somente quando ambas as partes conhecerem, reconhecerem e assumirem juntas um passado doloroso, cujas consequências ainda persistem.  

Este ensaio faz parte da série “O costume da terra” (Obiceiul pământului), um projeto jornalístico multimídia sobre as marcas da escravidão nas relações entre os roma e os romenos.

Nos anos 90, quando entrei no movimento dos roma com a intenção de escrever uma tese de doutorado sobre a cultura tradicional deles e, sendo uma ativista iniciante, com o desejo de apoiar a reconstrução de sua identidade étnica, eu não sabia quase nada sobre escravidão.

Eu havia escutado somente, das histórias contadas por roma idosos, que “trabalhávamos para os boiardos” ou , do folclore roma, que “mamãe e papai não são mais escravos”, mas não tinha uma ideia clara do que representou a escravidão na história dos roma da Romênia e na história deste país, nem por quantas centenas de anos esse sistema vigorou e muito menos  sobre as consequências da escravidão nos planos jurídico, socioeconômico e principalmente no plano espiritual.

Pouco sabia eu sobre a escravidão dos roma quando, tímida, entrei no departamento do Ministério da Cultura que tratava das minorias. “Sou cigana, terminei a faculdade de Letras e quero fazer um doutorado sobre os costumes tradicionais dos caldeireiros”, falei, sendo questionada por Vasile Ionescu, também ele roma, e conselheiro sobre a problemática dos roma, o que vim fazer na sala dele. “Não trabalhamos com ciganos e sim com roma”, foi sua resposta curta e grossa. Pareceu-me duro, e injusto, porque eu só queria era escrever sobre os roma e estava convencida de que isso era algo bom.

Compreendi, ulteriormente, que a história do racismo contra os roma na cultura romena começa com o falso nome que lhes foi dado: “cigano”. Na língua romani, a palavra “cigano” não exista. O termo provém do grego médio, de athinganos, ou athinganoi, que significa “pagão”, “intocável” ou “impuro”. A palavra foi usada, pela primeira vez, no ano 1068, num mosteiro da atual Geórgia, por um monge, em sua explicação a respeito da heresia dos athinganoi, sobre os quais se dizia que são nômades, bruxos e que leem as estrelas, aconselhando então os cristãos ortodoxos que evitassem esses hereges.

Pergaminho de 1695 onde Constantin Brâncoveanu reforça a propriedade de um abrigo de romas doado ao mosteiro de Horezu. Imagem fotografada do álbum “Romênia – história em documentos” (România – istorie în documente), editado pela Diretório Geral dos Arquivos do Estado em 1992.

No universo dos principados romenos medievais, a denominação de “cigano” designava o estatuto social de servo ou escravo, não fazia referência à etnia. Eis então duas acepções da palavra: primeiro, heresia e depois a condição de situar-se fora do sistema de hierarquia social. O escravo / “cigano” não integrava a estrutura da sociedade, colocando-se fora dela, era um simples objeto de troca e propriedade de um possuidor, seja ele um governante, boiardo ou um mosteiro. Mais tarde, a palavra “cigano” permaneceu, na mentalidade coletiva e no uso cotidiano da língua romena, com um sentido profundamente pejorativo.

Lendo os poucos livros de história que ousavam abordar o difícil tema da escravidão dos roma, mas especialmente estudando documentos de arquivo, entendi que a identidade atual dos roma da Romênia estruturou-se a partir de uma história de exclusão social e racismo institucionalizado. Desde a primeira atestação dos roma no espaço romeno, em 1835 (que lhes consagra o estatuto de escravos); passando pelo Holocausto romeno, que propôs e conseguiu exterminar dezenas de milhares de roma; pela assimilação forçada ou o etnocídio cultural do período socialista; pelos assassinatos e incêndios das residências roma dos conflitos interétnicos entre 1994 e 2000; pelos abusos, perseguições e violência policial contra as comunidades roma dos anos 90 até hoje, intensificados com a pandemia.   

Segundo as leis do país e o “costume da terra”, excluídos da condição de seres humanos, num estado de dependência não só econômica (como os servos da gleba), mais especialmente pessoal e legal – a forma mais grave de servidão jamais encontrada na história da humanidade – os escravos roma eram considerados bens móveis, sendo trocados, vendidos, dados, herdados e submetidos a abusos e violências que iam até o estupro, tortura e morte por parte do possuidor.    

A família roma não era reconhecida como estrutura comunitária, e sim como método de multiplicação dos escravos, semelhante à reprodução de animais domésticos; A escravidão afetou profundamente as crianças roma, separadas de suas famílias ao bel prazer dos senhores, trocadas, ofertadas ou vendidas, muitas vezes a um preço mais barato do que o de animais, só porque não eram consideradas boas o suficiente para o trabalho.  

Pergaminho emitido em 1374, pelo governante Vladislav Vlaicu, com ofertas ao mosteiro de Vodița, no distrito de Mehedinți. Quarenta famílias roma, propriedade do mosteiro de Vodița, passarão em 1385 para o mosteiro de Tismana. Imagem fotografada do álbum “Romênia – história em documentos” (România – istorie în documente), editado pela Diretório Geral dos Arquivos do Estado em 1992.

Efetivada sob a pressão do abolicionismo ocidental estupefato com a perpetuação de uma tal instituição retrógrada e desumana como a escravidão no progressista século XIX e no contexto dos esforços dos Principados Romenos de conquistar a simpatia do Ocidente, a liberação dos roma da escravidão foi um processo difícil e relativamente longo, tergiversado pela forte oposição da Igreja Ortodoxa e da maioria dos boiardos

Contudo, a alforria jurídica não representou uma mudança fundamental do estatuto dos roma na sociedade. O programa reformista da geração de 1848 e a política dos governos que se seguiram negligenciaram a problemática econômica – sobretudo a apropriação – e os aspectos de ordem moral, limitando-se à emancipação jurídica e à sedentarização, frequentemente forçada, dos roma. Não existiram políticas de inclusão dos roma entre os cidadãos dos Principados Romenos, o que levou a um rebaixamento destes ao estatuto anterior e à estigmatização de seu pertencimento étnico.      

As consequências da escravidão podem ser vistas hoje no modelo de imaginário coletivo majoritariamente herdado, saturado de preconceitos e estereótipos. O estudo de uma parte significativa do folclore romeno, especialmente dos provérbios, causos e contos de fada, demonstra um pensamento marcado de ironia e desprezo para com os roma. Os roma são vistos, no mais das vezes, como os representantes do mal, pérfidos, ladrões, criminosos, repugnantes, animais, numa palavra – anti-heróis.

Esta herança mental negativa, a ausência das instituições de formação e representação do modelo cultural roma, com a exceção notável do Centro Nacional de Cultura dos Roma – Romano Kher, e a falta, nos conteúdos programáticos escolares e no espaço público, de informações corretas sobre os roma levam à estigmatização destes, à internalização desse estigma e à rejeição, muitas vezes também por parte dos próprios roma, do pertencimento à etnia.        

Eis a nova forma de escravidão: a espiritual, a qual nenhuma lei pode abolir sem a contribuição firme e conjunta de todos os atores sociais, das autoridades públicas aos formadores de opinião.   

Ciente de tudo isto, a nossa associação Amare Rromentza tentou contribuir para a popularização do conhecimento e promover a compreensão da história e da cultura dos roma, especialmente entre os jovens roma e não-roma, através da realização e apresentação, em 2007 e 2008, da peça de teatro Rromanipen, criada com estudantes roma da seção de romani da Faculdade de Línguas Estrangeiras de Bucareste e com estudantes roma de outras faculdades.  

A primeira reação dos jovens roma e não-roma foi de estupefação. Existiram também reações de recusa por parte dos não-roma, que se mostravam céticos ao descobrir a história de senhores e de escravos de seus antepassados. Para estes, apresentamos argumentos probatórios da verdade histórica. Houve também reações furiosas por parte de jovens roma, que se perguntavam por que os seus descendentes escravos não se revoltavam contra o sistema escravista. Para estes, contamos sobre a luta pela liberdade, na justiça, de uns escravos roma alforriados, mas mantidos cativos, de modo abusivo, pelos seus senhores.    

A reação da comunidade científica, principalmente a dos historiadores, foi de amenizar a gravidade da escravidão dos roma, chamando-a de “servidão”, que, embora sinônimo perfeito de “escravidão”, era descrita como sendo menos grave e semelhante à serventia, ainda que as diferenças sejam fundamentais: a primeira sendo dependência pessoal e a segunda sendo apenas dependência econômica.  

Em Direções estratégicas de inclusão etno-educacional dos roma, eu propus uma série de medidas para o conhecimento e a compreensão da verdade histórica, para a desestigmatização da identidade étnica roma e para a divulgação de uma imagem correta dos roma. Desse modo, nossa associação criou o conceito de inclusão etno-educacional, uma abordagem em que o sistema educacional inclui oficialmente os roma, pelo reconhecimento, pela garantia e pelo cultivo de sua identidade étnica em todos os níveis de escolarização e na educação permanente dos adultos. É uma estratégia educacional nova, que pode ser aplicada a qualquer grupo étnico ou minoria.

Segundo ela, se um aluno roma com bom desempenho, que estuda numa escola de excelência e com professores qualificados, não se reencontrar pelo prisma do componente identitário nesse meio escolar, não será, do nosso ponto de vista, o beneficiário de uma educação de qualidade completa.  

Depois de uma história tão trágica, a sociedade romena tem uma dívida moral e material gigantesca para com os roma, uma das mais importantes sendo o reconhecimento da escravidão e a construção da memória desta no imaginário coletivo roma e romeno, o que pressupõe bem mais do que uma simples criação de uma data comemorativa, o dia da Libertação (20 de fevereiro), assim como acontece hoje.   

É preciso programas de pesquisa e editoriais a nível nacional, da presença plenária e correta da história da cultura dos roma nos programas escolares, livros didáticos e bibliotecas, nos meios de comunicação de massa, em qualquer tipo de formação de adultos, de monumentos de foro público, de instituições de pesquisa e divulgação da memória cultural roma e de seu patrimônio cultural (instituto de pesquisa, museu, teatro, centros culturais distritais e locais, coleções roma em bibliotecas públicas etc.).

A reconciliação entre os roma e a sociedade majoritária, em outras palavras, entre os ex-escravos e os ex-senhores, não se poderá realizar a não ser, por um lado, através do reconhecimento e admissão da história por parte da sociedade majoritária e das instituições de estado, e, por outro, pela reconstrução institucional da identidade roma para a reconquista de sua dignidade étnica. Tudo isso na esperança de que ainda existem chances para que os filhos dos roma sejam, finalmente, cidadãos plenos, e para que os filhos dos romenos não mais sejam escravos de seus próprios fantasmas sobre alteridade.


Este texto apareceu na revista DoR #46, num dossiê sobre a escravidão dos roma, em curadoria conjunta com Magda Matache, diretora do programa de estudos roma em Harvard e ativista pelos direitos dos roma. Porque para curar as feridas do passado é preciso incialmente reconhecê-lo e assumi-lo.

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