A Romênia era o meu bom país, mas padrasto

Carmen FRUNZĂ

Publicado na Dilema Veche n.º 964, de 29 de setembro a 5 de outubro de 2022 https://dilemaveche.ro/sectiune/tema-saptamanii/romania-era-tara-mea-buna-dar-vitrega-2208437.html

Hoje já não sei exatamente por que fui embora. Por causa da injustiça social? Do regime totalitário? Porque o Estado romeno era autoritário, com tendências fascistas, infantilizante? Ou porque as pessoas falavam cochichando? Porque a mãe de um colega de escola morreu jovem, pois não queria mais um filho e teve de abortar sem assistência médica? Porque o juramento de Hipócrates estava subordinado ao partido? Porque nas ruas era um breu só? Porque passei fome e frio inúmeras vezes? Por causa do policial de bairro da Zona do Sol – onde eu morava – que pedia minha identidade sempre que me via, só para se mostrar importante? Por causa dos garotos com quem saía e de seus preconceitos ultrapassados? Ou talvez porque as meninas da minha idade me julgavam? Porque eu parecia suspeita, farrista, inadequada, inconformista? Porque não havia livros? Porque não existia sociologia, psicologia ou outras ciências humanas e sociais? Porque os filmes que víamos e a música que ouvíamos eram pirateados e distribuídos às escondidas? Porque quase tudo era obtido por baixo dos panos? Jeans. Café. Chiclete. Chocolate. Perfumes. Sabonetes. Absorventes.

Deixei o país em maio de 1990, aos 22 anos, após duas tentativas frustradas de atravessar a fronteira clandestinamente. Na época, a fronteira tinha um significado particular. No fim dos anos 1980, eu traçava imaginariamente meu périplo pela Europa, com uma sede imensa de liberdade e, principalmente, com todo os sonhos do mundo.

A conjuntura da revolução semeou algumas dúvidas existenciais sobre a escolha — se era a escolha certa. Sobre coragem. Partir ou ficar? Escolhi partir, ver, ponderar, entender por que vivíamos fechados por tanto tempo. Deixei para trás um país onde as injustiças sociais me pareceram, mais tarde, gritantes, onde as carências materiais, humanas, culturais e institucionais se intensificavam. Sentia que algo estava errado, que o sistema permitia o crescimento e proliferação da mesquinharia, da maldade, da desigualdade, da injustiça, da violência e, sobretudo, da indiferença. Parti com tanta sede e vontade de esquecer, de viver algo diferente, que por muito tempo cortei todos os laços com o país, com a família, com os amigos. Foi um desenraizamento. Uma espécie de terapia, uma convalescença. Precisava esquecer o que significava ser adolescente naquele  tempo, num país sem meios contraceptivos, com um sentimento constante de culpa, de medo diante do risco, do perigo, com a sensação de que até o corpo era um bem comum, uma propriedade do estado. Precisava esquecer a humilhação de ser vigiada, julgada, esquecer os constrangimentos, o somatório de regras abusivas e absurdas.

A Romênia, para os franceses que conheci no primeiro mês após minha chegada à França, era um país destruído pela política de sistematização dos vilarejos e de Bucareste. Participei de um projeto de irmandade entre Saint-Priest (uma comuna próxima de Lyon) e Leordina (em Maramureș). A emoção da revolução televisada ainda era viva. Os franceses estavam chocados, tinham assistido o julgamento do casal Ceaușescu ao vivo, expressavam indignação e tristeza pela situação dos orfanatos. Mobilizavam-se, coletavam e enviavam por comboios humanitários roupas, alimentos, medicamentos, tudo que achavam que pudesse ser necessário. Na universidade, meus colegas conheciam a Romênia vagamente, percebiam-na como um país sem fronteiras definidas, uma parte do bloco comunista do Leste. A Europa Oriental era, para eles, uma entidade homogênea, um conglomerado uniforme para lá do Muro de Berlim. Assunto difícil no vestibular: localizar os países daquela parte da Europa.

Mais tarde, um amigo quis ver o que eu lhe havia contado com tanto entusiasmo sobre Bucareste. Voltou decepcionado e crítico.

Também encontrei franceses que sabiam muitas coisas sobre o país, conheciam os romenos exilados célebres, os grandes atletas, a situação econômica e o modelo político pós-revolução. Em desordem: Ionesco, Tzara, Celan, Comăneci, Vladimir Cosma, Celibidache, Ana Aslan, Elie Wiesel, Brâncuși, Enesco, Petre Roman. Conheciam os mosteiros da Moldávia e de Maramureș, a Transilvânia e Drácula, o Delta do Danúbio e o Mar Negro. Falavam da Romênia como de um país pobre, talvez o mais pobre da Europa.

Quando voltei ao país, em 1995, fiquei chocada com a força da inércia do velho sistema. Onde estavam os efeitos benéficos da revolução, suas promessas? Tive a impressão de que tudo permanecia congelado na mesma impotência, uma força latente fazia com que quase tudo parecesse igual. A mesma postura na fronteira, as mesmas atitudes. Entrei por Ruse, depois de voar até Varna, e segui de trem para Bucareste. Na fronteira, tive que descer porque meus documentos estavam com problema, o passaporte estava prestes a vencer. Um guarda gritou com um estudante inglês e jogou violentamente suas bagagens na plataforma. No trem, conheci um estudante romeno de Medicina. Disse-me que jamais deixaria os seus. Comod iz o provérbio: “Por pior que seja o pão, não deixo o meu torrão”. Mas acrescentou que expulsaria os ciganos do país.

Voltei inúmeras vezes depois. Sozinha ou acompanhada. No início, tudo me parecia feio. Via as coisas como os outros viam. Não era a pobreza ou a miséria que me chocavam. Era outra coisa. Muitos lugares pareciam abandonados. Inclusive os valores. Isso era o que mais me impressionava. Ter vivido em lugares de que ninguém mais cuidava me doía. Ver a degradação de uma sociedade que abandona seus idosos e crianças nas ruas me revoltava.

Um terreno político inculto, ocupado sistematicamente por ações e mentes corruptas me intrigava. Isso viria de uma espécie de resistência à emancipação? Uma necessidade doentia de manter os erros? Nunca quis voltar de vez, mas sempre me senti de lá. A Romênia era meu bom país, mas padrasto. A França, meu país padrasto, mas bom.

Hoje considero que a Romênia é o país para onde posso voltar sempre que quiser, é o “bairro vizinho”. A distância, antes gigantesca, agora é quase nula. Há muitos lugares fascinantes e muitas pessoas que adoro. Sempre venho com alegria. Às vezes encontro dificuldades, outras vezes situações absurdas. Muitas coisas funcionam bem, algumas até melhor que na França.

Não conheço romenos na França que queiram voltar definitivamente ao país. Continuamos a cultivar nossa língua. Ensinamos o romeno aos nossos filhos de forma imperfeita, como se fosse uma língua estrangeira, e isso nos entristece. Continuamos a nos informar sobre a situação política, geopolítica e econômica. Lemos, assistimos aos filmes romenos, nos cinemas, isso é importante, corremos para ver os quadros de Ghenie na Bienal de Veneza, vamos às peças de Vișniec e nos alegramos com as conquistas esportivas romenas. Por quem torcemos quando a França joga contra a Romênia?

Nunca esquecemos de onde viemos, mas nunca mais voltaremos para viver lá. No entanto, nos últimos dez anos, minha percepção mudou. Venho com o maior prazer e aproveito cada viagem. É preciso procurar, abrir o coração e ver as coisas de outro jeito. Ver o esforço considerável feito, as melhorias, alegrar-se com as boas iniciativas. As cidades reabilitam seu patrimônio cultural, arquitetônico, histórico. Constrói-se, reforma-se, renova-se. Nos últimos cinco anos, antes da pandemia, eu vinha ao país para verdadeiras infusões culturais, para os teatros de Bucareste, para os museus da capital, de Brăila, Brașov, Timișoara, Sibiu, Iași, para bons concertos, para encontros alegres com os amigos ou apenas para ouvir a língua romena falada por toda parte. Fiquei contente em passear por várias regiões — Bucovina, Moldávia, Dobruja, Banato, Maramureș —,  redescobrir o gosto dos romenos pela vida, suas comidas deliciosas, a țuica e a vișinata, o vinho nobre, os covrigi e a geleia de cereja preta.

Cinco da tarde, primavera de 2022, Timișoara. Flora. Uma mesa surrealista destacada do cenário. Redonda. Via nuvens finas e rasgadas de abril flutuando sobre os prédios familiares ao longo do rio, o bulevar que vai da Praça Maria até a Universidade, a faculdade de arte e literatura. O tempo era pouco, precisava ir ao aeroporto, então me deixei levar pelas impressões causadas pelos detalhes ao meu redor, intimidada pela vitalidade e pela calma da cidade. Sua presença se estendia na memória como um rastro de óleo precioso, de flores prensadas nas fábricas de perfume do sul da França. Peço um mapa da cidade, é outro dia, outra cidade, outras cinco da tarde. Identificadas, as ruas surgem diante de mim sob um novo olhar de urbanista. A estrutura do centro é simples. Cada rua tem um nome conhecido sobre o qual emergem, das profundezas, memórias. Tento me concentrar, trazê-las à tona com cuidado, um filme às vezes turvo, claro em partes, sob um céu carregado de nuvens amontoadas no fim do bulevar, ao redor da catedral. A luz é branca. Projeta-se com insistência sobre as mãos de um casal apaixonado, sentado na mesa ao lado. Desde que se encontraram, não tiveram tempo de conversar muito. Seu diálogo se desenrola em surdina, num cenário de salgueiros, fumaça de cigarros e de café quente. Volto trinta anos no tempo. Nesse intervalo, poderia ter seguido outros caminhos, vivido outras encruzilhadas sucessivos, feito outras escolhas… e, como num paradoxo temporal, numa fração de segundo, todo esse tempo desaparece, comprimido por uma emoção imensa.

Precisei recorrer a todos os sentidos para reabilitar meu pedaço real de vida… ou de ficção? Insisti em lhe dar o significado que merecia, mas a realidade do momento em que estive ali pela última vez, sentada no café Flora, na primavera de 1990, parecia colada a essa enorme fração de segundo que nunca termina desde que estou de novo aqui, sentada à mesma mesa redonda, prestes a ir para o aeroporto.

Sinto crescer em mim uma enorme incerteza, como uma doença incurável. Pergunto-me se minha partida tem um verdadeiro sentido, se a ruptura não foi grande demais, se a separação entre o Danúbio e o Ródano, entre os Cárpatos e os Alpes, não é às vezes insuportável. Pergunto-me se essa partida foi motivada por momentos decisivos ou se foi apenas uma escolha irracional. Na minha lembrança, tudo parecia fluido e simples. Hoje, tudo me parece abstrato, muito mais incerto. Não creio que serei arrebatada por uma nostalgia irreparável até o fim da vida, mas sempre restará o arrependimento de não saber como teria sido se eu tivesse ficado.

Carmen Frunză é especialista validação da experiência profissional na Universidade de Grenoble Alps. Deixou a Romênia em maio de 1990.

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