Por Ioan Stoleru, Forografias Cătălin Georgescu
Texto original em romeno: https://www.scena9.ro/article/vatmanita-stb
Não importa se o tempo está bom ou ruim, se é fim de semana ou dia de ano novo, os funcionários da STB (Sociedade de Transporte de Bucareste) acordam às três da matina para colocar os bondes e ônibus nas linhas que cruzam a capital. Acompanhei Elena Savu, uma condutora que dirige todos os dias um mastodonte de 37 toneladas.
Quando se encontram nas rotas, Elena e o marido – que é motorista de ônibus – se cumprimentam. Às vezes falam pelo telefone e dizem: “Olha, vou passar na tua frente daqui a cinco minutos”. Quando um vê muita gente na parada do outro ou algum problema no trânsito que possa afetar a rota, também se avisam. Se ocorre uma pane no bonde, ela pede para ele avisar os passageiros nas paradas para que saibam que não adianta esperar, e ele dá uma buzina para comunicar o pessoal. Um dia, o marido brincou dizendo que pararia o ônibus no meio do cruzamento para mexer no aparelho de mudança de via no lugar dela. “Ainda bem que não tem trilhos onde a gente se cruza, senão seria o cúmulo”, diz a condutora e cai na risada. Tem 44 anos e, em abril, completará dois trabalhando na STB, onde aprendeu a conduzir todos os tipos de bondes da frota da capital. Nos encontramos antes das festas de fim de ano, quando ela estava na linha 32 (Depoul Alexandria – Piața Unirii), e me contou da vida de condutora de bonde, dos veículos e dos desafios que surgem no trajeto.
“Sai o colega da frente e quatro minutos depois parto eu”. Já na primeira parada, alguém na plataforma parece cumprimentá-la com o olhar. “Os passageiros sempre me sorriem. Nem todo mundo, mas tem gente que já me reconhece”, conta. Ela usa uma camisa branca com babados, um chapéu azul-marinho e um acessório dourado que cobre a palma da mão.
O “escritório” dela, onde passa entre nove e nove horas e meia por dia, é a cabine do bonde. Tem pausas de 8 minutos ao fim de cada trajeto de 45 minutos e uma pausa para refeição de 15 minutos no meio do horário. Já se acostumou a ficar sem comer e tenta não beber água durante o turno, para não precisar usar os sanitários dos terminais. No intervalo de almoço, prefere ficar no celular e falar com a família, porque não tem tempo suficiente para comprar algo. Teria que levar comida de casa, o que significaria acordar ainda mais cedo. Diz que raramente, faz uma “extravagância”: quando o semáforo da esquina da Calea Ferentari com a Calea Rahovei está vermelho e ela precisa trocar o trilho, corre com a alavanca na mão até a pastelaria da esquina. “As meninas me conhecem e dizem aos clientes: ‘Deixem eu atender a dona do bonde primeiro’.” Para mudar a via, ela encaixa a alavanca em uma fenda e muda a posição das agulhas que direcionam o bonde.
Elena prefere trabalhar no primeiro turno da manhã, das 4h / 4h30 até 14h / 14h30, porque o trânsito é leve e ela chega mais rápido à garagem, tendo o resto do dia livre para cuidar das tarefas domésticas. Isso significa que, todas as noites, às 20h30, já está na cama, para conseguir acordar no horário.
Se precisa colocar o bonde na linha às 4h28, acorda às 2h45, faz café, se arruma e em 20 minutos sai de casa. Dirige até o depósito, pega os documentos com o despachante e procura o bonde designado. Prepara o painel, preenche a folha de percurso e vai até a primeira parada. Diz que é essencial não se atrasar, pois, se não colocar o bonde na rua na hora certa, “desorganiza toda a linha”.
“A primeira viagem é tranquila, tem pouco carro na rua. A partir da segunda, o trânsito aumenta, e na terceira já é um caos. Entre 6h50 e 9h, às vezes levo um minuto só para fechar as portas. Muitas vezes ficam passageiros na parada porque já lotou”. Depois o fluxo diminui e volta a aumentar pelas 15h30–16h, quando as pessoas saem do trabalho. Mas ela termina o turno por volta das 14h e, quando chega em casa, faz a primeira refeição do dia.
Embora o horário de trabalho seja complicado e inclua muitos fins de semana, o fato de o marido também ser motorista na rede pública de transporte de Bucareste ajuda. Costumam trabalham nos mesmos dias e também tirar as mesmas folgas. “Os que fazem nossa escala são muito gentis. Se no ano passado trabalhei nas festas de fim de ano, nesse ano tentam me dar folga. Sempre tentam nos ajudar. E também quando é preciso cobrir alguém, a gente vai, uma mão lava a outra”.
Elena Savu terminou o antigo Liceu Industrial “IOR” (hoje Liceu Teórico “Benjamin Franklin”). Antes de dirigir bondes, trabalhava num salão de beleza, mas o marido lhe deu a ideia de ir para a STB. “Gosto de dirigir, então comecei a estudar. Poderia ter ido para os ônibus, mas já tinha visto mulheres nos bondes e pensei: ‘Se elas conseguem, por que eu não?’” Fez o curso durante a pandemia, tirou a categoria D em março de 2022, foi contratada em abril e, desde então, não se imagina fazendo outra coisa. Acha o trabalho lindo. Depois de quase dois anos, está tão à vontade na cabine e conhece tão bem a sensibilidade do veículo que percebe até quando o bonde passa sobre um papel em cima dos trilhos. Gostaria de ter um ícone na cabine, mas não é permitido decorar os novos modelos Imperio, então carrega uma pequena imagem no bolso durante o turno.
Ela diz que as condutores são vistas de maneira diferente pelos colegas homens, que as consideram mais fortes. “Já passamos por todo tipo de situação. Uma vez, um bonde azul deu defeito, os bogies da frente travaram. Tive que bombear o sistema, destravar e levá-lo assim sem breque até o “curral”, quer dizer, até a garagem. Não dá para deixar no meio da linha, senão bloqueia tudo.” Esse trajeto até a garagem é uma operação meticulosa e exige atenção redobrada, já que o veículo fica sem freios.
Acha que sua paixão por bondes vem da infância, ouvindo histórias da avó, que era cobradora e trabalhava sentada num banquinho, recebendo o dinheiro dos passageiros. Gosta do modelo Imperio por ser moderno, limpo e ter nove câmeras que mostram “o salão inteiro”, mas tem carinho especial pelos antigos Tatra, da antiga Tchecoslováquia. “São lindos e muito bons. Queria que deixassem um para mim e pintado de rosa, para eu ser a única mulher com um bonde desses. Bom, precisaria de alguém pra me render, uma colega, de preferência”. Lembra-se de, quando andava como passageira e ficava justo atrás da cabine, ouvir um barulho cortante e se perguntar o que era. Só ao aprender a dirigir um V3A descobriu que era o controlador com 100 contatos que transmite ao circuito eletrônico a velocidade e ajusta a tensão aplicada ao motor – por isso o sistema (e o bonde) é chamado de “chopper”.
Conta que os condutores decoram até a hora dos semáforos e que “precisam pensar pelos outros”, ou seja, pelos motoristas que não respeitam o trânsito. Muitos bloqueiam o bonde quando mudam de direção e não dão prioridade. Quando chove ou quando tem folhas nos trilhos, a frenagem demora mais. Ela acha que os condutores de bonde têm a vida mais difícil do que os de metrô ou de trem, que escapam do trânsito. Enquanto fala, alguém avança o sinal vermelho. “Olha aí, por exemplo, a moça queimou o sinal. Eu tenho que estar atenta, porque se ela teve a astúcia de fazer isso, pode muito bem avançar no meu verde e me obrigar a frear.”
Se há uma falha técnica, a condutora precisa tirar os passageiros e seguir em marcha lenta até a garagem, tentando não bloquear o trânsito. Muitas vezes, o pessoal do departamento de “Tráfego” da STB (que os monitora via GPS) faz relatórios e “tira pontos”, mesmo que a falha não seja culpa dos condutores. Também ligam se ficam muito tempo numa parada ou se saem um minuto antes. “Somos monitorados o tempo todo.”
“Agora estamos sem energia, nem nos fios nem na linha. Temos 9 volts na bateria e estamos indo por inércia”, diz ela apontando para o painel. Situações assim ocorrem quando há muitos bondes na mesma linha e é preciso atenção para andar devagar, pois se frear bruscamente o bonde pode ficar travado até que a energia volte.
Ela diz que a principal insatisfação dos condutores é que os trilhos são antigos e não se sabe quando as autoridades vão reformá-los. Em alguns trechos estão tortos ou faltam centímetros de trilho, e por isso há restrições de velocidade. Com o Imperio isso se sente menos, por ser mais largo e baixo, mas nos modelos antigos, quanto pior a linha, mais o bonde sacoleja. “O bonde valsa com a gente e os passageiros reclamam: ‘Parece que está levando sacos de batatas!’. Mas pensa bem, a gente fica nove horas nisso. E se eu freio de supetão porque tem um carro no trilho, a mesma coisa, vêm bater na cabine, mas nem sabem o que é que estava na minha frente.”
Elena está sempre atenta ao itinerário, onde estão marcados os horários de cada parada. “Tentamos respeitar, porque é o mesmo do aplicativo da STB”, explica. Mas nem sempre dá, geralmente por causa dos carros que ocupam a faixa. “Os mais perigosos são os taxistas e os de Uber, porque param onde o cliente estiver.” Quando há pedestres indecisos na frente, ela faz sinal para que atravessem. “Prefiro vê-los do outro lado do que ali parados. Nunca se sabe o que vão fazer.”
Conta com orgulho que ela e o marido se vestiram com roupas tradicionais no dia 1º de dezembro, por iniciativa dela. “Todo mundo veio tirar fotos.” Além do marido, teve um tio que também trabalhou na STB e um primo distante que é motorista no transporte público desde antes de 2000. E o irmão dela é motorista no Serviço de Transporte de Voluntari, depois de ter trabalhado como entregador na Freshful.
Desde que entrou na STB, Elena passou a usar mais o transporte público nos dias de folga. Como passa nove horas sentada na cabine, prefere evitar o stress de dirigir quando sai de casa. “Pegamos ônibus, bonde, passeamos, tomamos ar… É melhor deixar que outros dirijam para mim – meus colegas”, ri. Também ensinou os dois filhos, de 15 e 18 anos, a usar o transporte público para ir à escola e a outros lugares.
Antes de terminar a penúltima viagem do dia, uma pane em outro bonde bloqueia a parada Depoul Alexandria. Logo chega um carro de conserto, mas a fila de bondes atrás só aumenta. “Foi esperto o colega aí de trás, que não bloqueou o grande cruzamento da Antiaeriana”, comenta sobre o condutor que teve a intuição de parar no ponto certo e deixar o trânsito fluir. Depois, observa fascinada enquanto um bonde V3A reboca de ré o veículo avariado. Diz que é uma manobra arriscada, que só um condutor experiente consegue fazer, e ainda assim guiado por alguém de fora, porque tem que passar por encruzilhadas.
Entramos na parada e já é hora de encerrar o turno. Ela troca olhares com alguém na plataforma – um colega que não conhece, mas que vai assumir o bonde no segundo turno.
Quando nos encontramos, Elena estava havia cinco meses no Depoul Alexandria, por causa das obras da Termoenergetica no bulevar Timișoara, e mal podia esperar para voltar “para casa”, no Depoul Militari.
Embora trabalhe há quase dois anos na STB, diz que quer se aposentar lá. Para cada passageiro mal-humorado, tem outro que sorri para ela quando espera na parada. “Outro dia falei com meu marido: ‘Olha, estou de folga, mas às vezes me dá uma vontade de pegar o bonde e ir trabalhar’. Nunca pensei que fosse gostar tanto.”
