O sentido da corrente de ar

O que é uma corrente de ar? Por que temos medo dela? É uma fobia justificada ou só uma invenção romena? E outras perguntas mais (e tentativas de resposta).

De Sorana Stănescu
Ilustrações de Irina Georgescu
16 / 11 / 2016

Publicado na revista DoR #1.

As afecções provocadas por uma corrente de ar são fáceis de diagnosticar. Conscientes de sua força destrutiva, para nós, romenos, é natural culpá-la por qualquer dorzinha esporádica. Entendemos tão bem os seus caprichos ao ponto de aprender como preveni-los.

Lavinia Costan, uma jovem de 23 anos que trabalha no departamento de marketing de um hospital particular de Bucareste, sabe que se pegar uma corrente de ar correrá o risco de ter dor de cabeça durante horas. E mais, ficará com os olhos irritados. Perguntou ao seu médico de família sobre essas dores e a resposta foi tranquilizadora; o organismo pode reagir de forma mais agressiva se a pessoa se expor à uma corrente de ar. 

Também Mariana Suciu, uma senhora de 53 anos de Cugir, tem dores de cabeça pelo mesmo motivo. Principalmente quando anda de carro com os vidros abaixados ou então quando cozinha e, inevitavelmente, precisa abrir a janela. A enxaqueca mais séria que já teve foi há 27 anos, quando viajou de Cugir até Sibiu num Dacia com os vidros abaixados. Era verão e tinha de fazer compras para um casamento. A dor foi tão potente que acabou indo para a Urgência. Tomou um Algocamin, ficou sentada num banco de parque e se sentiu melhor. Agora sabe exatamente distinguir uma dor de cabeça causada por corrente de ar de uma por deficiência de ferro, por exemplo.

A naturalidade desta relação que temos com a corrente de ar não passa despercebida pelos estrangeiros, que a princípio parecem não considerá-la assim tão nociva. Talvez não tenham conseguido aprender bem o idioma romeno nos poucos dias de um curso de verão, mas certamente devem ter topado com um nativo em pânico ao ver uma porta e janela abertas num mesmo cômodo. Kathleen McLaughlin, fotógrafa americana que morou aqui por dois anos, adora contar aos amigos sobre essa extraordinária invenção romena: a corrente de ar. É uma superstição que ela não encontrou mais em lugar nenhum do mundo e que, acredita ela, talvez venha do tempo quando as pessoas adoeciam e não tinham o conhecimento e as condições necessárias para se tratarem. Portanto, era preciso achar um responsável.

Antes de tentarmos desvendar o mistério da corrente de ar, eis aqui uma definição: não importa se estamos falando de uma frente fria ou daquilo que acontece num quarto quando alguém abre uma janela, uma corrente de ar é o deslocamento de uma massa de ar de um lugar a outro, causado por uma diferença de temperatura.

Mas então de onde vem esse pavor? Ainda que não existam estudos claros a respeito do assunto, o folclore macedônio associa o medo da “promaja” (fenômeno que provoca dores de cabeça, nos dentes e pontadas nos ombros) com a pandemia da peste que matou quase metade da população da Europa no século XIV. A “morte negra” primeiro assolou a Ásia Central, chegando depois na Criméia e em seguida no Mediterrâneo e na Europa por intermédio dos navios comerciais. Como muito pouco se sabia sobre vírus e modalidades de contaminação, o vento e as correntes de ar se tornaram, pelo menos em parte, os responsáveis pela transmissão da doença.

Embora a peste tenha afetado todos os povos europeus, nem todos acreditam que a corrente de ar algo seja algo deletério. Os ingleses a conhecem (eles dizem “draft”) e, mesmo com tempo instável, para eles é algo inofensivo. Nem os franceses têm esse pavor, nem os alemães, enquanto que lá nos poloneses é muito frio para deixar janelas e portas abertas ao mesmo tempo. Além de nós, os únicos medrosos parecem ser os búlgaros, sérvios, montenegrinos e macedônios.

A filiação balcânica do fenômeno pode ser explicada pelo prisma do clima e da natureza do ar da região? Viorica Dima, meteorologista da Administração Nacional de Meteorologia e Hidrologia diz que a Europa Ocidental tem um clima preponderantemente oceânico, com alta incidência de precipitações, enquanto que na Romênia incidem as influências das estepes russas, o que determina um clima de verões caniculares com baixa humidade e invernos gelados. Dima todavia acrescenta que essas diferenças climáticas e as características do ar romeno (nem mais seco e nem mais húmido que na Europa Ocidental) não são as causadoras de dores lombares.

Se não é o ar, a culpa deve ser de alguma tradição popular, alguma lenda ou herança. Sabina Ispas, diretora do Instituto de Etnografia e Folclore “Constantin Brăiloiu”, da Academia Romena, diz que não se sabe como nasceu esse medo de se expor às correntes de ar e que nem existem pesquisas sobre o fenômeno. Na melhor das hipóteses, o que se pode fazer são simples deduções. Por exemplo, quando as arromenas da Albânia, Grécia e Bulgária se estabeleceram na Dobrogea, na primeira metade do século passado, continuaram a vestir as mesmas roupas grossas que usavam nas montanhas. Como as temperaturas daqui eram bem mais altas, pegaram pneumonia e colocaram a culpa no clima. É possível que a mesma coisa tenha acontecido no caso da corrente de ar: após uma experiência generalizada, a população conclui que você pode adoecer se ficar exposto à uma corrente de ar.

Debbie Stowe é jornalista, mora há quase seis anos em Bucareste e escreveu dois guias de viagem sobre a Romênia. Ela não acha que a corrente de ar seja o vilão e sim que a preocupação é o que provoca dores de cabeça nos romenos. Descobriu a nossa fobia num verão, quando trabalhou na redação de um jornal local em língua inglesa. Os colegas obstinadamente se recusavam a abrir a janela, mesmo com as camisas coladas nas costas de tanto suor. Novamente lidou com o problema quando propôs a Vasile, seu namorado romeno, comprarem um ventilador para aplacar o desconforto das noites sufocantes de Bucareste. A mãe dele, enfermeira, não pareceu muito encantada com a ideia. A corrente de ar, ela disse, pode causar nevralgias, paralisias e até meningite. Foi também por conta de uma corrente dessas que Vasile teve dores de dente tempos atrás.

Contudo, Debbie não se convenceu. Ela gosta de pegar um vento – é refrescante! – e já decidiu que vai educar os filhos (quando os tiver) com essa mentalidade, independentemente do que digam os parentes romenos.

Na verdade, o que existe é uma confusão. Os médicos afirmam que o problema não é o deslocamento de ar e sim a diferença entre a temperatura do corpo e a do ar com o qual entra em contato. E mais, a verdadeira causa para esses sintomas colocados na conta da corrente de ar são as afecções que já temos e das quais estamos ou não cientes.    

O organismo humano é construído para manter uma temperatura constante, de aproximadamente 37 graus Celsius. E esse processo de autorregulação se torna mais difícil em condições de vento, frio ou humidade extrema, quando a taxa de perda de calor aumenta, o que acarreta a lentidão ou até mesmo o bloqueio de algumas funções corporais. Mais ainda, o organismo não suporta mudanças bruscas de temperatura superiores a 6-10 graus, daí a sensação de desconforto que sentimos quando saímos de um ambiente com 38 graus e entramos num local onde a temperatura é de 25.    

O medo de usar ar-condicionado é algo estreitamente ligado a fobia romena da corrente de ar. Petre Iulian, engenheiro na Technology S.A., uma firma que monta instalações de climatização, diz que um ar-condicionado bem projetado “nem se sente”. (Ele recomenda que a temperatura de um cômodo não ultrapasse 24 graus no verão e não seja menor que 22 graus no inverno) Florin Tighean, consultor na empresa Sava Clima, diz que é preciso levar em conta uma série de fatores quando se projeta qualquer instalação de climatização: superfície, altura e isolamento térmico do cômodo, a dimensão e localização das janelas, as fontes de calor existentes – inclusive computadores e o próprio corpo humano, também ele gerador de calor. Por exemplo, o aparelho de ar-condicionado num quarto deve ser posicionado de tal modo que o ar não bata diretamente na cama. Já num ambiente de trabalho ele deve ser montado no teto, para não afetar diretamente os utilizadores. Sabendo que o ar, quando sai da instalação de climatização, tem entre 5 e 7 graus e que o organismo humano não suporta grandes diferenças de temperatura em relação ao ambiente, compreendemos o porquê do risco de nevralgias se ficarmos próximos ao aparelho.

As afecções pré-existentes e predisposições são outros fatores que explicam os problemas que os romenos atribuem à corrente de ar. Um deles é a dormência ou mesmo paralisia num dos lados da face. Silviu Mănescu, médico neurologista no Hospital Universitário de Urgência de Bucareste, explica o diagnóstico em tais situações: para algumas pessoas, o canal ósseo por onde passa o nervo facial é mais estreito do que o normal. Desse modo, após se expor à uma corrente de ar frio, o canal se comprime e o nervo se inflama. Ou seja, trata-se de uma predisposição do próprio organismo, e a corrente de ar – independentemente da proveniência – não é de forma alguma o fator principal.

Nem as dores de dente podem ser atribuídas exclusivamente à corrente de ar. Șerban Beloiu, dentista na clínica Orodent, explica o mecanismo: em algumas pessoas, os dentes da maxila (arcada superior) têm uma relação estreita com a mucosa sinusal. Se esta sofre de uma sinusite crônica, intensificada após exposição a baixas temperaturas, podem aparecer dores difusas. Outras causas para dores de dente são as periodontites crônicas (inflamações a nível ósseo) causadas por higiene precária e que podem piorar depois de entrar em contato prolongado com o ar frio.

Portanto, a corrente de ar não é algo tipicamente romeno e nem a culpada pelos crimes médicos pelas quais é acusada. Mas, nenhuma dessas explicações esclarece a origem da fobia. Como era de se esperar, não existem “especialistas” em correntes de ar. Então, na falta deles, propomos nós uma teoria: o frio da época comunista (melhor dizendo, a falta de aquecimento central e o “bote mais uma roupa”, como dizia Ceaușescu) e o péssimo isolamento térmico dos edifícios construídos no período poderiam estar entre os responsáveis.

Para aumentar um pouco a temperatura, os romenos precisaram improvisar durante anos e se virar com aquecedores elétricos ou a gás, fogareiros à diesel, lenha ou serragem. Vivendo nessas condições, talvez se tenha criado um “sexto sentido” que detectasse a mais sutil corrente de ar que ameaçasse roubar do pouquinho de calor que havia. Que mais era uma corrente de ar senão ainda mais frio? E o frio crônico não significa, para uma população com uma saúde de certa forma já precária, simplesmente doença?

Claro, é só uma teoria. Uma que a Revolução, as janelas de PVC, as centrais de apartamento e os isolamentos térmicos não nos permite que seja estudada mais detalhadamente. É possível que com o tempo, “o sentido da corrente de ar” se atenue, como o resto das sequelas daquela época.   

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